domingo, 28 de setembro de 2008

Magalhães

O Pedro descalça-se antes de entrar. «Venho brincar».
Brincar com os castelos, às vezes é dos bons, às vezes é dos maus, até os guerreiros não serem suficientes. Aí, o Pedro e o meu dez anos, improvisam uma capa duma toalha que atam no pescoço e, com espadas de pau, batalham pela posse das escadas de caracol, até não ser suficiente. Saem para o jardim, para os campos, e conquistam árvore atrás de árvore, até ao muro que separa o meu terreno da horta dos pais dele. Estão próximo do tanque e resolvem apanhar lagartixas. São os dragões.
Chamo-os para lanchar e deixo-os sós na cozinha. «Arrumem tudo quando acabarem».
O Pedro vai ter um Magalhães, quando chegarem aqui. A julgar pela forma como coloca os sapatos, alinhados pelo tapete da entrada, cordões metidos para dentro para que os gatos não os mordam, a sua preocupação com as horas, «Já são cinco horas? Tenho de estar em casa às cinco para ajudar a minha mãe», a forma cuidadosa como devora os livros de história e ciências nas estantes dos meus filhos, e pela falta de luxos em casa, ele tratará o Magalhães como um tesouro. Quase teve um computador no último natal mas o pai juntou-se à mãe no desemprego e já não houve dinheiro.
- No fim de lanchar, podemos brincar no teu computador? – pergunta o Pedro.
- Podemos.
- Eu fico só a ver-te jogar. Posso enganar-me nas teclas e estragar-te o disco.
Às vezes o Pedro traz um amigo. Às vezes dois ou três.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

povo


© Martin Brogen

O povo que me rodeia é aquele que me deixa coisas na entrada da porta, homens que se ajudam trabalhando nos campos uns dos outros, mulheres que cozinham para o divorciado que vive sozinho, quando adoece, que deixam portas abertas e são roubados por forasteiros de países longínquos como a Roménia (como raio vierem dar com a nossa aldeia? não sabem que é tudo pobre por aqui?), que são enganados por burlões de gravata com promessas de reformas chorudas da França, que nunca foi a Lisboa quanto mais ao Algarve, e que do Porto só conhece bem os hospitais, que pede licença antes de cortar as minhas hidrângeas azuis para assear a igreja, que alimenta os cães e gatos vadios, que se junta e vai todo junto, de porta em porta, pedir para ajudar a pagar a cadeira de rodas da menina do Zé de baixo, me ensurdece com a música pimba nas noites de festa com os imigrantes e as ave-marias nos altifalantes da igreja nos dias santos, que vai à praia aos domingos na camioneta das oito, porque não se pode levar o farnel na mota, e volta à tardinha, vermelho como uma lagosta e olhos vertidos de mar, mãos e bainhas das calças cheias de areia dos castelos que deixaram no areal.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Makeup on empty space

I am putting on makeup on empty space
all patinas convening on empty space
rouge blushing on empty space
I am putting makeup on empty space
pasting eyelashes on empty space
painting the eyebrows of empty space
piling creams on empty space
painting the phenomenal world
I am hanging ornaments on empty space
gold clips, lacquer combs, plastic hairpins on empty space
I am sticking wire pins into empty space
I pour words over empty space, enthrall the empty space
packing, stuffing jamming empty space
spinning necklaces around empty space
Fancy this, imagine this: painting the phenomenal world
bangles on wristspendants hung on empty space
(...)
I wanted to scare you with the night that scared me
the drifting night, the moaning night
Someone was always intruding to make you forget empty space
you put it all on
you paint your nails
you put on scarves
all the time adorning empty space
Whatever-your-name-is I tell you "empty space"
with your fictions with dancing come around to it
with your funny way of singing come around to it
with your smiling come to it
with your enormous retinue & accumulation come around to it
with your extras come around to it
with your good fortune, with your lazy fortune come around to it
when you look most like a bird, that is the time to come around to it
when you are cheating, come to it
when you are in your anguished head
when you are not sensible
when you are insisting on the
praise from many tongues

It begins with the root of the tongue
it begins with the root of the Herat
there is a spinal cord of wind
singing & moaning in empty space

Anne Waldman, Makeup on empty space

Leitura por Anne Waldman no YouTube

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

beijo

Quando o meu filho mais velho tinha quatro anos, recusou beijar a minha mãe. Ela ficou triste e eu repreendi-o.
- Porque não dás um beijo à avó?
- Porque ela tem os lábios podres.
Foi assim que ela soube que ia morrer.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

socrates


Iris Schwarz


"ALL MEN ARE MORTAL. SOCRATES WAS MORTAL. THEREFORE, ALL MEN ARE SOCRATES" - Woody Allen

sábado, 20 de setembro de 2008

formigas

O meu local de leitura preferido é a sombra da tília do meu jardim. As minhas irmãs e o meu pai juntam-se a mim nas tardes de Domingo mas, ao fim de algum tempo, somos escorraçados pelas formigas. Brotam da terra para nos invadir, passeiam-se em cima de nós, fazem-nos comichão. Descobri que invadiram também o meu carro e não percebo porquê. Não há lá alimento para elas.

“Ouço Hamman perguntar-me com insistência como foi possível tornar-se morta a língua da Natureza. Essa língua morreu porque nós já não falávamos com Ela, ou acontecera que a própria Natureza deixou de falar?” – Llansol, Finita 

Tive o carro estacionado na cidade uma semana, no asfalto, longe do verde e da terra, e reparo com estranheza que as formigas sobreviveram. De quê? Se a Natureza deixou de falar, poderão as formigas ter deixado de comer?
A verdade é que elas no carro não me incomodam mas receio que incomodem os passageiros. Apesar disso, ainda não fiz nada ao carro para o libertar da Natureza.


Midori Yamada

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

engano


House of the last dragon - Jana Brike

Lembro-me de brincarmos juntas na sala que ficava por cima da adega da avó dela. A casa caía de podre, o soalho ferido nos buracos que sugavam os nossos pés, se não tivéssemos cuidado, e paredes que não cicatrizavam. Não tínhamos autorização para subir, devido ao perigo, mas escapulíamo-nos para lá, sorrateiras, protegidas pelas barrigas dos pipos de vinho que escondiam a nossa sombra, de pipo em pipo, até às escadas. A avó dela era fácil de enganar.
Não havia nada de interessante na sala excepto ser interdita desde o dia em que Marcelo Caetano visitara o burgo.
A multidão aglomerou-se pelas varandas da praça, decoradas com as colchas de seda como se fosse sair a procissão, para ver e acenar a sua excelência. A casa da adega tinha as varandas cheias mas um velhote, colocando sem querer o pé numa tábua podre do soalho, caiu, abrindo um buraco onde ficou preso até a cintura. Da varanda do patronato, onde eu estava junto com as outras crianças, bandeirinha de Portugal de papel na mão, conseguia ver os esforços das outras pessoas, lutando contra a gravidade, para o tirarem de lá. Quando o resgataram, são e salvo, eu bati palmas e reparei que toda a gente fazia o mesmo. O Marcelo Caetano, ignorante do velhote, pensou que as minhas palmas eram para ele. Quando partiu, fui reclamar a minha parte de rebuçados que os padres distribuíam às crianças. Tinha-me portado bem, abanado a bandeirinha e batido palmas. Sua excelência era como a avó da Paula. Fácil de enganar.

casamento

Desisto de tentar entender as pessoas que aceitam a homossexualidade mas não aceitam o casamento entre homossexuais e as que aceitam o casamento mas não a adopção de crianças. Um homofóbico é coerente. Não gosta de gays, não aceita a homossexualidade como condição humana, natural. São fáceis de entender.
Se Deus existisse e fosse justo, obrigaria toda a gente, em diferentes fases das nossas vidas, a ser heterossexual, gay, transexual, para ver se aprendíamos de uma vez por todas que a nossa diversidade nos enriquece e que dela deveríamos tirar partido, em vez de a negar com teorias sem pés nem cabeça, que mais não fazem que fingir o preconceito de quem as enuncia e não admite que o tem. Uma sociedade que teima em excluir uma parte de si, negando-lhe uma vida plena e aberta, é uma sociedade cruel. Bárbara.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

september 11

because of this
today a woman wrote a poem
she climbed the words like a beetle
under the sun in the afternoon
hiding the face inside the earth
she shouts her September to the dead
it is her lament
it is her part

because of that
today a scrapbook will not be blank
she will add a photograph
under the poem in the evening
hiding the ashes inside the hands
she will spread her September to the living
it is their lament
it is their part

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

espreitar a face de deus


«The Large Hadron Collider (LHC) is a gigantic scientific instrument near Geneva, where it spans the border between Switzerland and France about 100 m underground. It is a particle accelerator used by physicists to study the smallest known particles – the fundamental building blocks of all things. It will revolutionise our understanding, from the minuscule world deep within atoms to the vastness of the Universe.

Two beams of subatomic particles called 'hadrons' – either protons or lead ions – will travel in opposite directions inside the circular accelerator, gaining energy with every lap. Physicists will use the LHC to recreate the conditions just after the Big Bang, by colliding the two beams head-on at very high energy. Teams of physicists from around the world will analyse the particles created in the collisions using special detectors in a number of experiments dedicated to the LHC.»
- http://public.web.cern.ch/public/en/LHC/LHC-en.html

Estas coisas criam sempre alguma ansiedade e receios e não sem alguma razão. A ciência erra e não é globalmente aceite como um meio de dizer verdades absolutas, sobretudo por aqueles que não têm conhecimentos suficientes para poderem distinguir o verdadeiro do falso nas questões que não dominam. São a maioria e tudo acaba por se resumir a uma questão de fé. É o meu caso. Não sei se vamos ficar mais perto de compreender a origem do universo, ou se adicionaremos mais questões às que já existem. De qualquer forma, acredito que sabem o que fazem e que é seguro fazê-lo. Boa sorte aos cientistas do CERN.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

num cinema longe de si

Depois de ter lido os comentários ao filme “Aquele Querido Mês de Agosto” em vários blogues, fiquei com muita curiosidade em vê-lo, mas descobri que não está em exibição para estes lados. A menos que monte na mota e abale até ao Porto para o ver, o povo de que fala o filme vai ter de continuar à espera, tirando o Berto claro, que não tem paciência para esperar e já tem o DVD pirata.

é eremita

Não, não é, diz-me, de vez em quando sai. Está bem.
A aldeia onde vive parece ter-se deslocado no mapa mas acabo por encontrá-la. Isolou-se aqui, longe de tudo e dos vizinhos. Eles acham que ela é louca.
Não é preciso bater o calçado no tapete da entrada porque o chão da sala ainda é de terra batida. O velho sofá ainda lá está, coberto por pêlos de cão, e o cão também, estendido em cima dele. Dir-se-ia que não se moveu desde a última vez que a visitei.
As telas estão espalhadas pela casa, nas paredes, no chão, pelos cantos. Os desenhos espreitam dos gavetões emperrados mal fechados do louceiro e esboços a carvão pousam na mesa, no aparador; levantam voo quando abre a janela para deixar entrar alguma luz. A porta do quarto de banho está aberta e o espelho reflecte o poster do Arco do Triunfo fotografado de noite, todo iluminado, que ela pendurou na parede oposta. Memórias de uma cidade que lhe serviu de refúgio quando pensou que por ter estado na Líbia o melhor era fugir. Não valia a pena mas sempre serviu para conhecer Paris, fazer a peregrinação dos museus e comprar o poster.
Andou sempre a fugir de qualquer coisa. Mal saída da puberdade começou a procurar sítios para se esconder, onde pudesse metamorfosear os impulsos obsessivos em liberdade espiritual. Enfiava-se no sótão, entre o entulho e as centopeias que o habitavam, e lá passava horas, imóvel, contemplando os telhados vizinhos pela pequena janela ou a luz que atravessava a clarabóia. Sentava-se como um budista em meditação. Não falava. Tentei fazer o mesmo sentando-me ao seu lado numa espécie de competição do silêncio. Ela ganhava sempre. Deveriam ter percebido, os pais, mas não quiseram saber. «Está-se a armar», diziam, «são fases da adolescência».
Faz o chá porque sabe que não bebo café e sentamo-nos no alpendre com a chávena na mão. O chão em granito está preenchido com desenhos a giz. É o reflexo do tecto e das paredes da casa, tão bem executado que não é preciso fazer muito esforço para nos sentirmos em cima de um espelho. Por momentos quase pergunto se não estou dentro de uma tela, se as árvores e a relva do jardim não serão também pinturas.
Diz-me que não consegue controlar o impulso para desenhar. «Deve ser uma doença mental, daquelas que nunca foram estudadas, sem nome». Ela diz que não é criação artística, é uma doença porque «na verdade, tudo o que faço é uma merda». Percebo que acredita mesmo nisso e talvez explique a sua repulsa por exposições, galeristas, publicações; não me autoriza a colocar aqui um dos seus desenhos.
Os filhos estão crescidos mas apenas os vislumbro. São eremitas como ela. Vivem dentro do computador e falam uma língua binária, uma sucessão de uns e de zeros.
Passamos assim algumas horas, entre conversa e silêncios, até eu sentir que quer que me vá embora. Venho embora mas antes peço-lhe que faça qualquer coisa ao cão. Diz que não tinha reparado mas tratará do assunto.
Atraem-me as obsessões e as pessoas que sobrevivem dentro delas. Por causa delas esquecem-se de comer, roubam horas ao sono, crescem-lhes olheiras nos olhos, empalidecem a pele. Esquecem-se do chão de terra batida na sala, dos vasos que imploram alimento e do cão morto estendido no sofá.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

quando for grande


Artist's impression of s supermassive black hole ripping apart a star and consuming some of its matter (NASA/CXC/M.Weiss). aqui


Quando o meu filho mais velho tinha seis anos:
- O que queres ser quando fores grande?
- Quero ser governo.
- Governo?
- Sim. O mundo está todo mal e eu quero pô-lo direito. 
Quando percebeu que teria de ser eleito e que para isso teria de ser popular, desistiu de ser governo. Resolveu então que queria ser astrofísico. 
- Porque queres ser astrofísico?
- Porque o espaço está cheio de mistérios. Quero descobrir o que está por trás dos buracos negros. 

Ainda não mudou de ideias. Tão jovem e já se convenceu que o mundo não o escutará.
Dizia-me a minha cunhada irlandesa que os jovens da Irlanda são uns tontos. Bebem demais, atropelam gente, vandalizam, não deixam dormir a vizinhança, são mal-educados, insultam os velhos, parecem não ter sentido algum na vida, suicidam-se. Ela sempre teve tendência para generalizar e faço-lhe ver isso, não podem ser todos assim, mas ela diz que a maior parte é assim e abençoa o dia em que ela e o meu irmão decidiram mudar-se para cá, para que os filhos aqui crescessem, porque Portugal tem muitos defeitos, diz, mas ainda é o melhor sítio para as crianças crescerem. Falamos da nossa juventude, dos nossos gostos, o que fazíamos e não fazíamos, lembramo-nos que na adolescência nós íamos mudar o mundo. Os nossos filhos escutam a conversa e o meu sobrinho mais velho(15) diz:
- Eu também quero mudar o mundo. 

Na minha juventude eu também pensava que o mundo seria muito melhor se toda a gente se calasse e me escutasse. Nunca me lembrei de estudar os buracos negros.

a rua da luz encarnada

A rua abre-se para a praça, escondendo um pouco o sol devido às sombras projectadas pelas casas antigas que gente endinheirada em tempos habitou. Vivem lá os bêbados, as prostitutas, os chulos, os traficantes, operários de salário baixo, desempregados dos têxteis, anões, ladrões, mercenários. Para melhor aproveitar os grandes espaços, os casarões foram divididos em habitações cujas paredes pouco mais absorvem o som que o lençol estendido numa corda, que há alguns anos cortava salas e famílias ao meio.
As crianças brincam na rua, muito para além dos olhos das mães. Brincam ao pião, ao esconde-esconde, jogam futebol, quando há bola, apanham pontas de cigarros do chão que fumam em poses imitando os adultos. Banham-se no fontanário da praça, que já ninguém utiliza, esparrinhando água, gargalhadas e palavrões para todo o lado, para cima de quem vá a passar, umas vezes sem querer, outras vezes propositadamente. As mães passam o tempo que estão em casa, a lavar chãos, janelas, roupa no tanque municipal num sobe e desce de bacias equilibradas nas cabeças. Descansam nas soleiras das portas que brilham e cheiram a lixívia, coscuvilhando com as vizinhas as vidas recíprocas.
As velhas só saem de casa para ir à igreja. Encostam-se à janela e penduram os rostos engelhados nas cordas, ao lado das roupas que secam ao sol.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

big brother


No Big Brother, os participantes recebem mais ou menos votos de acordo com a sua maior ou menor capacidade de fazerem figura de parvos. Normalmente o mais parvo ganha, por isso, é prematuro afirmar-se que ao escolher Sarah Palin, com todos os seus calcanhares de Aquiles, McCain já perdeu as eleições. Eu espero que não ganhe mas já não tenho assim tanta confiança no bom senso das multidões.

google owns you



O Chrome, o browser do Google, vai ser um sucesso entre aqueles que se dão ao trabalho de experimentar ferramentas diferentes das que vêm com o Windows. Estou a usá-lo desde ontem e, para já, estou satisfeita. Mais rápido e mais estável que o Firefox, tem também um design muito simples e limpo sem deixar de oferecer todas as ferramentas úteis. A possibilidade de poder navegar sem deixar registo deverá agradar a muita gente, sobretudo a quem usa o PC do emprego para assuntos privados. Sinto falta da ferramenta para encontrar palavras numa página. A do Firefox é muito útil.
O problema do Google é esse, tudo o que faz, faz bem. Com o seu Gmail, Reader, Pesquisa, YouTube, Picasa, Book Search, mapas, blogs, etc., vai bem lançado na corrida ao world domination. Como diz o meu catorze anos - "Google owns you". O Google sabe tudo sobre mim. O que leio, o que ouço, o que pesquiso, o que escrevo, a que horas, e agora vai saber ainda mais com o Chrome. Tanta informação concentrada numa só entidade não deverá ser muito saudável. Na verdade, preocupa-me mais isso do que o chip na matrícula do meu carro.

Actualização via Exame Informática 4.9.2008
«A licença de utilização do novo browser da Google é considerado abusiva e vai ser corrigida. A nova versão vai ser retroactiva.
A indignação correu pela Internet. O acordo de utilização do novo browser da Google dava à empresa o direito de usar como bem entendesse todos os conteúdos pessoais que fossem disponibilizados através dos “serviços” da Google. Por “Serviços”, o acordo entendia o browser e quaisquer outras páginas ou programas. A empresa, noticia o Ars Technica, vai rever e alterar este acordo.»


não é sentir fragmentos
esvoaçares entrecortados no céu azul
este céu denuncia outro tempo;
desce o azul pela avenida
encontra os gestos amenos de todos os dias
esta quietude resignada
da mulher parada em cada esquina

a tropa

O meu irmão mais novo, fez a tropa em Mafra. Contava-nos muito pouco dessa experiência, preferindo guardar tudo para ele. A única coisa que ficou na minha memória foi a preocupação da minha mãe com a farda, nos fins-de-semana chuvosos e húmidos, porque secava mal, e da certeza que ela tinha que a disciplina da recruta lhe quebraria os nervos. Lembro-me de ver o meu irmão já fardado, pronto para regressar a Mafra, e de o ouvir dizer à minha mãe «Adeus mãe. Vou para o estrangeiro.» Os rapazes daqui, mal passavam Coimbra em direcção ao sul, sentiam-se estrangeiros.
O mutismo do meu irmão em relação à tropa e o facto do meu pai e o outro irmão não terem cumprido o serviço militar por incapacidade física, deixou-me sem memórias dessa espécie de ritual de passagem da adolescência para a vida adulta. Resta-me um postal do meu tio, com a fotografia dele à civil, que nos enviou de Timor quando lá cumpriu o serviço militar. Ao olhar para esse postal reparo que ele parece um turista, sentado num jardim, como se lá estivesse a passar férias.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

mapa genético da europa





Uma equipa de investigadores suíços e americanos concluiu, num estudo recentemente publicado, que apesar da população europeia ser geneticamente muito semelhante, é possível saber a origem de um europeu através da análise do seu ADN, com uma margem de erro de apenas algumas centenas de quilómetros. Os mapas genético e geopolítico da Europa encaixam um no outro.

«Overall, our study showed that the autosomal gene pool in
Europe is comparatively homogeneous but at the same time
revealed that the small genetic differentiation that is present
between subpopulations is characterized by a significant
correlation between genetic and geographic distance. Furthermore,
the qualitative nature of these results is in close agreement
with expectations based on human migration history in
Europe. The major prehistoric waves of human migration in
Europe followed south and southeastern to north and northwestern
directions [1], including the first Paleolithic settlement
of the continent by anatomically modern humans [18], most of
the postglacial resettlement during the Mesolithic [19], and the
farming-related population expansion during the Neolithic [18,
20]. Thus, both the level and the change in neutral autosomal
variation in Europe can be expected to roughly follow southernto-
northern gradients as we observed, with the possible exception
of population isolates as observed for the Finns.»

via Dieneke's Anthropology Blog