domingo, 17 de agosto de 2008

quando os mortos não falam

Está a fazer um ano que o Karl morreu. Adeline resolveu limpar o atelier onde ele se entretinha a fazer pequenas reparações e onde guardava as suas ferramentas, todas organizadas e arrumadas segundo uma lógica e uma eficiência muito alemã. Dentro de uma caixa encontrou uma prenda para ela, para lhe oferecer no aniversário. Não chegaria lá e a prenda ficou esquecida dentro da caixa, dentro do armário, no atelier, na cave.
Adeline subiu a colina e foi ralhar-lhe na sepultura. Quem estava a morrer era ela, não tinha nada que se lhe antecipar, deixá-la só a abrir caixas e a encontrar prendas de aniversário que tanto a faziam chorar. E ele que não dizia nada.

Há muitos anos, quando a mãe de Adeline agonizava na cama, pediu-lhe que enviasse um sinal depois de morrer, se na verdade houvesse vida depois da morte. Algumas semanas depois da mãe falecer, quando Adeline punha a mesa para o jantar, viu umas luzes em movimento sobre o lugar que a mãe costumava ocupar à mesa. A partir desse dia não voltou a chorar a mãe. Disse-me que foi ela quem lhe enviou as luzes.
Eu sei que ela espera ainda que o Karl fale com ela e também sei que é por isso que resolveu vir novamente a Portugal, apesar de ter dito que sem ele não voltaria. Ela sabe que ele gostava muito de cá estar e como eu sonho com ele e ela não, acho que se convenceu que ele está aqui. Acho que se convenceu que é aqui que ele lhe dirá alguma coisa.

Sem comentários: