quinta-feira, 7 de agosto de 2008

a missa das velhas

São sempre as primeiras a chegar à igreja e nos dias de semana são também as últimas. O padre diz a missa de expressão enjoada. As velhas cheiram a urina, a vaginas doentes e mal lavadas. Nunca deixam cair moedas na cestinha das esmolas, nem quando o sacristão octogenário a espeta debaixo dos seus narizes, provocador. Fingem que não é nada com elas e olham para os anjos pintados no tecto azul, quando o padre lhes dá sermões sobre higiene pessoal. Uma velha inspecciona o altar da virgem pelo canto do olho, escrutinando defeitos na decoração ou restos de cera na toalha de linho. Para além de fedorentas, são também avarentas e críticas.
O padre deixou de sonhar com funeral atrás de funeral, velha atrás de velha a descer à cova sob uma chuva de água benta espargida sobre os caixões, quando o sacristão lhe disse que naquela paróquia as velhas não morrem. "É verdade senhor padre, já cá estavam quando eu nasci, quando o meu avô nasceu e por aí fora". Inúmeras cartas foram escritas à diocese solicitando transferência para outro paradeiro, adicionando argumentos, de recusa para recusa, explicando
que as velhas remontavam ao tempo dos castros e que, ao que tudo indicava, prolongariam a estadia para além das viagens inter-galácticas. "Não adianta, nenhum padre alguma vez conseguiu sair daqui. Tudo o que vai conseguir é que lhe citem o livro sagrado e o mandem aguentar como Jesus aguentou", dizia-lhe o sacristão. E assim aconteceu.
Com uma mola imaginária no nariz, o padre apressa o ritual, enfia as hóstias nas bocas sem dentes, saudai-vos na paz de Cristo, ámen, e foge rapidamente.
Depois de fechar os portões, o sacristão ondula o turíbulo pelos quatro cantos da igreja, perfumando-a com incenso, embora saiba que é inútil. A igreja continua a cheirar às entranhas das velhas.


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