terça-feira, 26 de agosto de 2008

conto de fadas


Todas as ruas tinham uma maria-rapaz. Também tinham um zé-rapariga, mas esses, ao contrário delas que se vestiam de rapaz e usavam o cabelo cortado à escovinha, não andavam de minissaias a mostrar as cuecas com lacinhos. Não eram identificáveis.
Eu pensava que o Pedro me seguia por todo o lado porque estava apaixonado por mim mas, afinal, ele queria estar junto das meninas para falar de rapazes.
Sentados na soleira da porta, víamos os noivos entrar na igreja e víamo-los sair casados, correndo felizes nas escadas, de mãos dadas sob o arroz e as folhinhas de oliveira. Ele dizia que queria casar, quando fosse grande, e ia ter dois filhos. Eu imaginava-me casada com ele e com dois filhos, o dia do casamento; eu de vestido branco e cuecas de lacinhos com as minhas iniciais bordadas pela minha mãe – para não se confundirem com as da minha irmã – e ele de fato preto, camisa branca e papillon, como na fotografia da primeira comunhão.
Depois de partida a comitiva, levando consigo os risos, o roçagar dos vestidos, o fumo dos charutos, os perfumes, a festa toda, fechavam-se os portões da igreja. Corríamos até lá e apanhávamos o arroz e as folhinhas de oliveira nas escadas para atirarmos um ao outro. Colavam-se ao nosso cabelo e ríamos e eu dançava em volta dele, diz, diz, com quem vais casar, mas ele não dizia. O Pedro sonhava com dois fatos pretos.
Ia ser feliz para sempre. Por momentos. Até as pombas se precipitarem dos telhados e lhe virem comer o arroz das mãos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Gosto do que escreves como escreves.

Paulo