quarta-feira, 13 de agosto de 2008

as cobras

«Caught a large snake in the herbaceous border beside the drive. About 2’ 6” long, grey colour, black markings on belly but none on back except, on back of neck, a mark resembling an arrow head all down the back. Not certain whether an adder, as these I think usually have a sort of broad arrow mark all down the back. Did not care to handle it too recklessly, so only picked it up by extreme tip of tail. Held thus it could nearly turn far enough to bite my hand, but not quite. Marx interested at first, but after smelling it was frightened & ran away. The people here normally kill all snakes. As usual, the tongue referred to as “fangs”» - Diário de George Orwell, 9-Agosto-1938

Lembrei-me das cobras. Tenho várias, conservadas dentro de frascos, em cima do armário rústico da sala. Também lá está um morcego. Ser a única mulher numa casa de machos tem destas coisas. Trazem todos os seres para casa (não, não mataram os engarrafados, encontraram-nos já mortos), desde as pequenas lagartixas às salamandras, vacas-loiras, louva-a-deus, gafanhotos, cobras, ouriços-cacheiros, etc. Pegam-lhes, acariciam-nos, observam-nos bem de um lado e do outro, fotografam-nos e depois deixam-nos ir à vida deles. Os répteis são os mais atractivos para os meus filhos, principalmente as cobras porque são as mais difíceis de encontrar. Aqui as gentes também as matam e, estranhando esse costume, perguntei um dia à Isabel porque se matam as cobras; disse-me que é por causa das crianças. Por vezes metem-se dentro das casas, de noite, e quem tem filhos pequenos receia que as cobras os estrangulem. Deve ser a matança que as leva a esconderem-se bem. Sabemos que andam por aí porque encontramos a pele delas nos campos. Nos verões muito quentes, os incêndios nas montanhas empurram-nas para os jardins, serpenteando desorientadas, e aí são vistas com mais frequência.
Estranho que sendo eu uma pessoa com várias fobias, nenhuma se relaciona com animais. Não gritar e dizer que nojo sempre que me aparecem com um ser na mão ou numa caixinha, agrada-me e agrada aos meus filhos, que me acham uma rapariga com tomates. De vez em quando levam os frascos para a escola, para mostrar à turma. As raparigas, depois de vencerem o nojo e o medo, interessam-se pelas formas e pelas cores. Quanto mede? É venenosa? Os rapazes fazem sempre perguntas assim.
Ficam embasbacados a olhar para as cobras.

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