terça-feira, 26 de agosto de 2008

arrumação

Tem a mania das limpezas. Vem à minha casa e quando me apercebo já está na cozinha a lavar loiça, a limpar bancadas, a remover as migalhas que as crianças deixaram em cima da mesa, a guardar utensílios nos sítios que julga serem certos mas que estão errados. «Não laves a loiça, mete-a na máquina», mas ela diz que é pouca coisa. Sempre foi assim. É pouca coisa.
A casa dela não a denuncia. Remove todos os indícios, elimina todas as imperfeições. Não há papéis fora do sítio, migalhas esquecidas em cima da mesa, armários em desordem ou gavetas em convulsão. Não tem um cabelo fora do sítio, nem quando está em desalinho. Desalinha-se com perfeição. Não se vê uma cã crescer, uma unha partida, umas calças fora de moda e o carro parece sempre que veio de lavar e aspirar. Quem não a conhece como eu a conheço, pensa que ela é metódica, organizada, que tem tudo arrumadinho, direitinho, no sítio certo, mas lá dentro há uma desarrumação.
Começa a ler um livro que interrompe para corrigir testes, que interrompe para enviar uma SMS a alguém, volta aos testes, que interrompe para programar as férias, «com quem vou este ano? onde vou?», que interrompe para ler este blogue, «estás a escrever sobre mim», que interrompe para pensar que talvez cá venha ver a gata que viu na montra da loja e levou para casa, que dias depois me trouxe porque ela «morde os dedos dos pés das visitas» e aqui «tem mais liberdade».
A tua gata caça os pássaros e abandona os seus cadáveres na minha entrada.

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