domingo, 6 de julho de 2008

ecografia

Toda a gente sabia que os machos daquela família raramente vingavam e que os sobreviventes o faziam incapacitados, física ou mentalmente. Sem nunca ter ouvido falar de ADN e de cromossomas, a mãe dizia que havia veneno no sangue, resultado de maus-olhados lançados aos antepassados, válidos para gerações futuras, e mal aceitou casar fez o que fizera já a sua mãe e avó antes dela. Decidiu que procriaria apenas mulheres e assim fez, seguindo os conselhos das antigas sobre as noites propícias à geração do feminino, escolhendo o ponto cardeal para onde deveria estar orientada a cama de casal conforme se alternavam os astros na abóbada que cobria o leito. Gerar mulheres não lhe tirava a ansiedade, teria de ser cautelosa na sua criação não fosse a maldição, na falta de machos, transferir-se para as fêmeas. As cinco filhas cresceram aprendendo que o mais pequeno indício de doença deveria ser tratado como desgraça iminente. Escolhiam-se santos e santas de devoção, de provas comprovadas na cura das diferentes doenças, e espalhavam-se pela casa as suas representações em papel, ao lado de lamparinas que se mantinham acesas, noite e dia, enquanto durava a agonia da mais leve depressão, os vermelhões do sarampo, as feridas da varicela. Quando a doença era contagiosa recolhiam-se todas ao leito e a mãe tratava-as pingando lágrimas e ave-marias de cama para cama, enfiando-lhes os santos por baixo dos pijamas, junto ao coração. Talvez o santo de papel se fundisse com o tecido cardiovascular e nessa fusão de átomos se expulsasse a maleita dos corpos. Não se ignorava a ciência nem tão pouco a bruxaria mas todas as artes da cura estavam sujeitas a uma hierarquia. No primeiro dia eram os santos, depois o médico e em último caso, a bruxa. Se a doença resistia, umas artes completavam as outras de forma democrática.
Mas se as doenças que vinham no ar, que ninguém podia evitar, exigiam protecção divina, sobrenatural ou científica, todas as outras ameaças requeriam atenções redobradas, de cuidados imensos, desde a vigia constante que a mãe fazia às brincadeiras de criança, removendo obstáculos e dando conselhos ininterruptos, à alimentação. Criavam galinhas, patos, coelhos, porcos, semeavam e colhiam os seus próprios legumes e frutas, isentos de pesticidas, e a carne bovina era comprada num talho de absoluta confiança. Não se bebia água da rede, da qual a mãe desconfiava, mas sim a água do poço que brotava límpida e fresca das entranhas da terra, e o leite era comprado à vizinha que tinha vacas leiteiras e tratava delas com carinho, chamando-as pelos nomes que lhes deu e falando com elas enquanto as ordenhava.
Nestes usos e costumes cresceram as cinco filhas. Nos bancos da escola e da faculdade aprenderam a evitar a troça dos colegas escondendo a superstição e dentro dos sutiãs os santos de papel, cuja função era protegê-las durante o tempo que estavam fora de casa; para não se virar a camioneta, para não serem atropeladas, para terem boas notas, e tudo o mais que pudesse esconder algum perigo.

Uma a uma foram casando e, tal como a mãe, gerando apenas fêmeas. Nas reuniões de família, bastante frequentes, o pai era o único macho que interessava e a multidão de mulheres borboleteava à sua volta, ignorando os maridos depois de os alimentarem e despacharem para o jardim. A mãe sorria satisfeita. Incutira-lhes respeito e admiração pelo pai, fazendo dele o centro da família, como forma de compensar a tristeza que ele sentia por não ter filhos homens. Tudo corria como a mãe planeara; filhas e netas saudáveis à sua volta, ligadas a ela por laços secretos que só elas partilhavam, de geração para geração, inquebrantáveis. Foi numa destas reuniões, quando as mulheres se juntaram na cozinha e os homens jogavam às cartas no jardim sob a sombra dos jacarandás, que a penúltima filha anunciou a sua gravidez. Enquanto a mãe corria a acender a lamparina por baixo do retrato do santo, a filha disse-lhe que a ecografia revelara um feto macho.

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