sábado, 5 de julho de 2008


O meu pai ofereceu-me os livros dele da instrução primária. Não me lembro de os ver nas estantes lá de casa. Por certo tinha-os escondidos. Eu e a minha irmã mais velha líamos tudo o que apanhávamos, desde muito pequenas, e os livros dos meus pais denunciam-no. Há folhas amarrotadas, sarrabiscos, sublinhados, desenhos, e os cantos superiores direitos das páginas estão escurecidos de tanto molhar o indicador na língua para virar as páginas. Na casa dos meus pais encontrei um livro onde tinha escrito, em letra de criança, pata peta pita pota puta a mana é uma puta. Foi a minha irmã, claro, reconheci-lhe a caligrafia. Não tínhamos autorização para dizer palavrões e, quando se zangava comigo, como não podia dizê-los, escrevia-os.
Estes dois livros estão razoavelmente conservados. Escaparam ao vandalismo de cinco filhos irrequietos. Os manuais mudavam pouco com o passar dos anos e estes, antes de serem do meu pai, pertenceram a outras pessoas. Um tem a assinatura de uma Amália e o outro a de uma Fátima. Tento imaginar a Amália e a Fátima aprendendo as lições, sonhando talvez com o invejável título de rainhas do lar.



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