terça-feira, 29 de julho de 2008

poço de desejos



Passeamos nas ruas de Caminha que se engalana para a feira medieval. Não é preciso muito; uns panos desfraldados, música medieval, alguns galegos vestidos de bobos e uma palhaça borboleta em cima de estacas é quanto basta para nos enfiarmos no túnel do tempo em sentido inverso, até ao tempo de D. Afonso V. O cenário de ruas estreitas e praças graníticas faz o resto. Segundo o panfleto distribuído, quando o rei lá passou, ouviu o povo que se queixava das taxas elevadas cobradas pelos guardas fronteiriços a minhotos e galegos, impedindo o livre trânsito de bens e pessoas. O rei deu razão ao povo e logo tratou de rectificar a situação. Caminha recria esse momento histórico e os galegos atravessam o rio para participar. Há mais galegos que minhotos nas ruas e quase todas as barracas são deles, desde as dos comes e bebes às bugigangas. As crianças não querem arredar pé da tenda das aves de rapina, fascinados pelos olhos dos mochos e das corujas. Um falcão aterra na careca de um turista e toda a gente se ri às gargalhadas. A mulher tira fotografias.
O meu sobrinho quer comprar uma fisga e o meu dez anos quer um escudo e uma espada de madeira. Temos de passar pela exposição de instrumentos de tortura para os quais mal consigo olhar. Arrepiam-me, com excepção da guilhotina que tem uma certa beleza; proporcionava uma morte rápida ao contrário das outras maquinarias que foram cuidadosamente desenhadas para infligir um sofrimento inimaginável sem matar as vítimas.
Desistimos de tentar perceber a lógica dos preços; uma fisga de pau que nada mais é que um galho ao qual se atou um elástico, custa três euros enquanto o escudo e a espada ornamentados, custam cinco. A minha irmã mais nova, que sabe os preços de tudo, espanta-se com os preços praticados nos cafés. Foram inflacionados, talvez para não ficarem atrás dos preços praticados do outro lado do rio.
Não parece incomodar muito as pessoas a julgar pelas esplanadas e restaurantes cheios; a feira é pequena mas bonita e Caminha tão acolhedora, merecem ser bem pagos.
Na rua mais comprida, atulhada de tendas e de gente que passeia o bronzeado, há de tudo. As minhas irmãs experimentam pulseiras enquanto o da tenda ao lado oferece cornos de barro a quem lhe comprar uma ginjinha. A música de discoteca escapa-se de um bar, deslocada do ambiente, irritando os nossos ouvidos que preferem a música medieval. Adolescentes enfeitam o cabelo com tiaras de flores plásticas. O meu dez anos também quer uma fisga e o pai escolhe uma enquanto lhe diz que não é para atirar nos pássaros ou outros animais, mas sim em alvos inanimados para treinar a pontaria. O meu catorze anos não quer nada a não ser um cêntimo para atirar ao poço e tentar acertar no balde pendente. A câmara de Caminha vai ficar rica, diz um homem pequenino quando nos vê a dar cêntimos às crianças mas também ele acha piada e atira uma moeda lá para dentro. Junta-se uma pequena multidão em redor do poço; fecham os olhos e formulam desejos silenciosos. Quase todas as moedas falham o alvo, caindo na água turva do fundo.

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