sábado, 5 de julho de 2008

Patroa

A Dona Fátima, minha vizinha, é minúscula. Não sei de onde lhe sai a energia quando me vem ajudar nas limpezas depois de uma manhã passada no campo e a limpeza da sua própria casa. Esta casa é muito grande, grande de mais para uma só mulher, por isso, somos duas a limpar. Conversamos uma com a outra. Ela vê o horário escolar do meu catorze anos, colado no armário do frigorífico, e espeta o dedinho indicador sobre o nome da professora de Educação Visual. “Esta senhora também é minha patroa”. Admirei-me que soubesse o nome todo da setôra de EV. Nunca se interessou em saber o meu nome completo, porque saberia o dela? “Ontem estive na casa dela e no escritório tinha muitos papéis espalhados. Papéis com fotografias. Vi lá a fotografia do seu filho e disse-lhe, este é o filho da minha outra patroa.”.
Pergunto à Dona Fátima quantas patroas tem. Já teve três na cidade, depois ficou com duas e quando surgiu a oportunidade de trabalhar cá em casa, muito perto da sua, deixou outra. Agora só tem duas, eu e a professora de EV. “Não tive coragem de deixá-la, sabe, é boa pessoa e precisa mesmo de mim. Tem dois pequenitos que lhe sujam tudo e ela não tem tempo”.
Patroa, patroa, patroa. Fico a matutar nesta palavra que me soa tão estranha quando me é aplicada.
Uma vez, em miúda, fiz de sopeira na peça de teatro da escola da igreja. A minha patroa era uma parasita cheia de futilidades. Numa das cenas, ela, representada por uma rapariga mais velha, bonita com mamas e tudo, estava estendida num sofá e quatro criaditas de quarto pintavam-lhe as unhas; uma mão e um pé para cada uma. O meu papel consistia em dizer duas ou três frases com sotaque da aldeia, carregando nos esses. Fiz o papel muito bem, bem demais; o público desatou às gargalhadas e nos dias seguintes, toda a gente me chamava sopeirinha, pedindo-me para carregar nos esses. Nunca mais quis fazer peças de teatro, fiquei cheia de pena das sopeiras e comecei a detestar as patroas. Foi assim que o país perdeu uma grande actriz.
Aqui está a Dona Fátima a dizer que eu sou patroa dela e eu a pensar nas minhas unhas que nunca foram à manicura.

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