quarta-feira, 2 de julho de 2008

digestão

Tenho um certo atrevimento em construir um resumo das coisas, como eu as sinto, como eu as apreendo, e chamar-lhe criação. As ligações que mantemos com os nossos passados são demasiado importantes. Nada podemos negar. Iludirmo-nos talvez, mas nunca negar. A criação pode ser a afirmação da realidade interpretada pelo ser, a materialização constante do passado. Sai-me quando tem de sair, da maneira que sair. Posso aplicar-lhe a disciplina, compô-la como quem compõe uma jarra de flores, mas aí transforma-se e morre. Digerimos os cadáveres dos outros e chamamos-lhes arte. A imortalidade é isso, é a digestão contínua.
A minha jarra, que não é uma jarra mas sim um frasco de azeitonas pretas com flores silvestres, indisciplinadas, que colhi nos campos, é mais bonita que as do Van Gogh. Cumprirá o seu ciclo natural e regressará ao pó de onde veio.

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