
desenho do meu catorze anos - Julho 2008

eu, segundo o meu dez anos - Julho 2008

Passeamos nas ruas de Caminha que se engalana para a feira medieval. Não é preciso muito; uns panos desfraldados, música medieval, alguns galegos vestidos de bobos e uma palhaça borboleta em cima de estacas é quanto basta para nos enfiarmos no túnel do tempo em sentido inverso, até ao tempo de D. Afonso V. O cenário de ruas estreitas e praças graníticas faz o resto. Segundo o panfleto distribuído, quando o rei lá passou, ouviu o povo que se queixava das taxas elevadas cobradas pelos guardas fronteiriços a minhotos e galegos, impedindo o livre trânsito de bens e pessoas. O rei deu razão ao povo e logo tratou de rectificar a situação. Caminha recria esse momento histórico e os galegos atravessam o rio para participar. Há mais galegos que minhotos nas ruas e quase todas as barracas são deles, desde as dos comes e bebes às bugigangas. As crianças não querem arredar pé da tenda das aves de rapina, fascinados pelos olhos dos mochos e das corujas. Um falcão aterra na careca de um turista e toda a gente se ri às gargalhadas. A mulher tira fotografias.
O meu sobrinho quer comprar uma fisga e o meu dez anos quer um escudo e uma espada de madeira. Temos de passar pela exposição de instrumentos de tortura para os quais mal consigo olhar. Arrepiam-me, com excepção da guilhotina que tem uma certa beleza; proporcionava uma morte rápida ao contrário das outras maquinarias que foram cuidadosamente desenhadas para infligir um sofrimento inimaginável sem matar as vítimas.
Desistimos de tentar perceber a lógica dos preços; uma fisga de pau que nada mais é que um galho ao qual se atou um elástico, custa três euros enquanto o escudo e a espada ornamentados, custam cinco. A minha irmã mais nova, que sabe os preços de tudo, espanta-se com os preços praticados nos cafés. Foram inflacionados, talvez para não ficarem atrás dos preços praticados do outro lado do rio. Não parece incomodar muito as pessoas a julgar pelas esplanadas e restaurantes cheios; a feira é pequena mas bonita e Caminha tão acolhedora, merecem ser bem pagos.
Na rua mais comprida, atulhada de tendas e de gente que passeia o bronzeado, há de tudo. As minhas irmãs experimentam pulseiras enquanto o da tenda ao lado oferece cornos de barro a quem lhe comprar uma ginjinha. A música de discoteca escapa-se de um bar, deslocada do ambiente, irritando os nossos ouvidos que preferem a música medieval. Adolescentes enfeitam o cabelo com tiaras de flores plásticas. O meu dez anos também quer uma fisga e o pai escolhe uma enquanto lhe diz que não é para atirar nos pássaros ou outros animais, mas sim em alvos inanimados para treinar a pontaria. O meu catorze anos não quer nada a não ser um cêntimo para atirar ao poço e tentar acertar no balde pendente. A câmara de Caminha vai ficar rica, diz um homem pequenino quando nos vê a dar cêntimos às crianças mas também ele acha piada e atira uma moeda lá para dentro. Junta-se uma pequena multidão em redor do poço; fecham os olhos e formulam desejos silenciosos. Quase todas as moedas falham o alvo, caindo na água turva do fundo.
Toda a gente sabia que os machos daquela família raramente vingavam e que os sobreviventes o faziam incapacitados, física ou mentalmente. Sem nunca ter ouvido falar de ADN e de cromossomas, a mãe dizia que havia veneno no sangue, resultado de maus-olhados lançados aos antepassados, válidos para gerações futuras, e mal aceitou casar fez o que fizera já a sua mãe e avó antes dela. Decidiu que procriaria apenas mulheres e assim fez, seguindo os conselhos das antigas sobre as noites propícias à geração do feminino, escolhendo o ponto cardeal para onde deveria estar orientada a cama de casal conforme se alternavam os astros na abóbada que cobria o leito. Gerar mulheres não lhe tirava a ansiedade, teria de ser cautelosa na sua criação não fosse a maldição, na falta de machos, transferir-se para as fêmeas. As cinco filhas cresceram aprendendo que o mais pequeno indício de doença deveria ser tratado como desgraça iminente. Escolhiam-se santos e santas de devoção, de provas comprovadas na cura das diferentes doenças, e espalhavam-se pela casa as suas representações em papel, ao lado de lamparinas que se mantinham acesas, noite e dia, enquanto durava a agonia da mais leve depressão, os vermelhões do sarampo, as feridas da varicela. Quando a doença era contagiosa recolhiam-se todas ao leito e a mãe tratava-as pingando lágrimas e ave-marias de cama para cama, enfiando-lhes os santos por baixo dos pijamas, junto ao coração. Talvez o santo de papel se fundisse com o tecido cardiovascular e nessa fusão de átomos se expulsasse a maleita dos corpos. Não se ignorava a ciência nem tão pouco a bruxaria mas todas as artes da cura estavam sujeitas a uma hierarquia. No primeiro dia eram os santos, depois o médico e em último caso, a bruxa. Se a doença resistia, umas artes completavam as outras de forma democrática.
Mas se as doenças que vinham no ar, que ninguém podia evitar, exigiam protecção divina, sobrenatural ou científica, todas as outras ameaças requeriam atenções redobradas, de cuidados imensos, desde a vigia constante que a mãe fazia às brincadeiras de criança, removendo obstáculos e dando conselhos ininterruptos, à alimentação. Criavam galinhas, patos, coelhos, porcos, semeavam e colhiam os seus próprios legumes e frutas, isentos de pesticidas, e a carne bovina era comprada num talho de absoluta confiança. Não se bebia água da rede, da qual a mãe desconfiava, mas sim a água do poço que brotava límpida e fresca das entranhas da terra, e o leite era comprado à vizinha que tinha vacas leiteiras e tratava delas com carinho, chamando-as pelos nomes que lhes deu e falando com elas enquanto as ordenhava.
Nestes usos e costumes cresceram as cinco filhas. Nos bancos da escola e da faculdade aprenderam a evitar a troça dos colegas escondendo a superstição e dentro dos sutiãs os santos de papel, cuja função era protegê-las durante o tempo que estavam fora de casa; para não se virar a camioneta, para não serem atropeladas, para terem boas notas, e tudo o mais que pudesse esconder algum perigo.
Uma a uma foram casando e, tal como a mãe, gerando apenas fêmeas. Nas reuniões de família, bastante frequentes, o pai era o único macho que interessava e a multidão de mulheres borboleteava à sua volta, ignorando os maridos depois de os alimentarem e despacharem para o jardim. A mãe sorria satisfeita. Incutira-lhes respeito e admiração pelo pai, fazendo dele o centro da família, como forma de compensar a tristeza que ele sentia por não ter filhos homens. Tudo corria como a mãe planeara; filhas e netas saudáveis à sua volta, ligadas a ela por laços secretos que só elas partilhavam, de geração para geração, inquebrantáveis. Foi numa destas reuniões, quando as mulheres se juntaram na cozinha e os homens jogavam às cartas no jardim sob a sombra dos jacarandás, que a penúltima filha anunciou a sua gravidez. Enquanto a mãe corria a acender a lamparina por baixo do retrato do santo, a filha disse-lhe que a ecografia revelara um feto macho.

O que são pessoas comuns? As pessoas que lêem os livros da Margarida Rebelo Pinto, parece querer dizer a capa da Ler. E as que não lêem, são o quê?
Gosto das pessoas comuns. Não consigo evitar empatia pelas pessoas classificadas como isto ou como aquilo pelos mequetrefes que se julgam herdeiros dos neurónios de uma espécie superior e que, tão frequentemente, são burros como uma porta.

O meu pai ofereceu-me os livros dele da instrução primária. Não me lembro de os ver nas estantes lá de casa. Por certo tinha-os escondidos. Eu e a minha irmã mais velha líamos tudo o que apanhávamos, desde muito pequenas, e os livros dos meus pais denunciam-no. Há folhas amarrotadas, sarrabiscos, sublinhados, desenhos, e os cantos superiores direitos das páginas estão escurecidos de tanto molhar o indicador na língua para virar as páginas. Na casa dos meus pais encontrei um livro onde tinha escrito, em letra de criança, pata peta pita pota puta a mana é uma puta. Foi a minha irmã, claro, reconheci-lhe a caligrafia. Não tínhamos autorização para dizer palavrões e, quando se zangava comigo, como não podia dizê-los, escrevia-os.
Estes dois livros estão razoavelmente conservados. Escaparam ao vandalismo de cinco filhos irrequietos. Os manuais mudavam pouco com o passar dos anos e estes, antes de serem do meu pai, pertenceram a outras pessoas. Um tem a assinatura de uma Amália e o outro a de uma Fátima. Tento imaginar a Amália e a Fátima aprendendo as lições, sonhando talvez com o invejável título de rainhas do lar.
A Dona Fátima, minha vizinha, é minúscula. Não sei de onde lhe sai a energia quando me vem ajudar nas limpezas depois de uma manhã passada no campo e a limpeza da sua própria casa. Esta casa é muito grande, grande de mais para uma só mulher, por isso, somos duas a limpar. Conversamos uma com a outra. Ela vê o horário escolar do meu catorze anos, colado no armário do frigorífico, e espeta o dedinho indicador sobre o nome da professora de Educação Visual. “Esta senhora também é minha patroa”. Admirei-me que soubesse o nome todo da setôra de EV. Nunca se interessou em saber o meu nome completo, porque saberia o dela? “Ontem estive na casa dela e no escritório tinha muitos papéis espalhados. Papéis com fotografias. Vi lá a fotografia do seu filho e disse-lhe, este é o filho da minha outra patroa.”.
Pergunto à Dona Fátima quantas patroas tem. Já teve três na cidade, depois ficou com duas e quando surgiu a oportunidade de trabalhar cá em casa, muito perto da sua, deixou outra. Agora só tem duas, eu e a professora de EV. “Não tive coragem de deixá-la, sabe, é boa pessoa e precisa mesmo de mim. Tem dois pequenitos que lhe sujam tudo e ela não tem tempo”.
Patroa, patroa, patroa. Fico a matutar nesta palavra que me soa tão estranha quando me é aplicada.
Uma vez, em miúda, fiz de sopeira na peça de teatro da escola da igreja. A minha patroa era uma parasita cheia de futilidades. Numa das cenas, ela, representada por uma rapariga mais velha, bonita com mamas e tudo, estava estendida num sofá e quatro criaditas de quarto pintavam-lhe as unhas; uma mão e um pé para cada uma. O meu papel consistia em dizer duas ou três frases com sotaque da aldeia, carregando nos esses. Fiz o papel muito bem, bem demais; o público desatou às gargalhadas e nos dias seguintes, toda a gente me chamava sopeirinha, pedindo-me para carregar nos esses. Nunca mais quis fazer peças de teatro, fiquei cheia de pena das sopeiras e comecei a detestar as patroas. Foi assim que o país perdeu uma grande actriz.
Aqui está a Dona Fátima a dizer que eu sou patroa dela e eu a pensar nas minhas unhas que nunca foram à manicura.
Depois há manhãs assim, em que acordo sem recordações dos sonhos. Pensei que sonhava com um zumbido de qualquer criatura estranha, mas não; era a moto-serra de alguém a cortar troncos na montanha. Depois de me acordar, a moto serra cala-se. Aposto que é de propósito. Alguém que tem de se pôr a pé muito cedo resolveu que eu não tenho o direito de ser preguiçosa. Surgem-me dúvidas sobre a palavra motosserra; é com hífen, é tudo junto, é separado? Diz a wikipédia que as motoserras são usadas para o derrube de árvores e funcionam com motores de combustão a dois tempos com um cilindro. Era mesmo disso que eu precisava, de funcionar com motores a dois tempos. O cilindro talvez fosse útil para alisar a pele que se vai enrugando.

Os meus sonhos eróticos nem sempre são agradáveis porque nem sempre concordo com a sucessão de imagens que culmina no orgasmo. Acordo e fico aborrecida, angustiada; aquela fantasia sonhada, que eu desconhecia dentro de mim, não deveria existir, não deveria sacudir o meu corpo e causar-me espasmos vaginais. Não a quero. O meu cérebro acordado pretende mandar no adormecido, impor-lhe limites e juízo, mas este não admite intromissões; tem vida própria e faz do meu corpo o que lhe apetece.
Sonhei com o amor, não, não era amor; era uma empatia romântica. Uma conversa entre duas pessoas num café, um restaurante e de repente, numa sala de embarque muito semelhante à do aeroporto de Galway como a recordo, pequena e decadente mas extravagante; sobre o balcão, que era o mesmo em todos os cenários, crescia uma roseira brava. Uma madeixa caía num rosto masculino e uma mão afastava-a e prendia-a por trás da orelha. As minhas mãos, estranhamente, estavam enluvadas. Calcei luvas porquê? Para impedir o contacto da pele, claro, para que fosse só ternura. Estava a ser conduzida a um êxtase que nada teria a ver com o orgasmo dos sentidos corpóreos; transcendia a matéria.
Não cheguei lá; acordei demasiado cedo com o chamamento da coruja lá fora.

Tenho um certo atrevimento em construir um resumo das coisas, como eu as sinto, como eu as apreendo, e chamar-lhe criação. As ligações que mantemos com os nossos passados são demasiado importantes. Nada podemos negar. Iludirmo-nos talvez, mas nunca negar. A criação pode ser a afirmação da realidade interpretada pelo ser, a materialização constante do passado. Sai-me quando tem de sair, da maneira que sair. Posso aplicar-lhe a disciplina, compô-la como quem compõe uma jarra de flores, mas aí transforma-se e morre. Digerimos os cadáveres dos outros e chamamos-lhes arte. A imortalidade é isso, é a digestão contínua.
A minha jarra, que não é uma jarra mas sim um frasco de azeitonas pretas com flores silvestres, indisciplinadas, que colhi nos campos, é mais bonita que as do Van Gogh. Cumprirá o seu ciclo natural e regressará ao pó de onde veio.