terça-feira, 10 de junho de 2008

pequenos seres na ratoeira



Podia marcar as incursões do sol
por esta sala. Alimentar uma esperança
solar. Mas as estações são indomáveis
e uma casa é um jogo de janelas
que se fecham. Mosca inerte nas vidraças
laranja que apodrece sobre a mesa:
eis os pequenos seres na ratoeira.

Carlos Poças Falcão




Era o professor de Relações Públicas. Eu já o conhecia de vista – quem cresce numa cidade pequena conhece toda a gente, senão da boca e das mãos, dos olhos. Entrou sorrindo timidamente na sala e vi os lábios pronunciarem «Boa tarde» mas não ouvi devido às vozes elevadas dos colegas e o arrastar das carteiras. A minha turma juntava-se na maioria das aulas e partia-se ao meio quando uns tinham Direito e outros tinham Jornalismo, quando uns tinham Francês e outros tinham Inglês, mas todos tínhamos Relações Públicas e assim, todos juntos, era mais difícil impor a ordem. Na aula de Filosofia, anterior a esta, todos percebêramos no primeiro instante que as aulas dessa disciplina, nesse ano, iriam ser uma festa. Os primeiros cinco minutos do professor com os seus alunos ditam o que o resto do ano lectivo vai ser e agora, na apresentação do professor de Relações Públicas, com a turma ainda excitada da balbúrdia da aula anterior, eu esperava que os cinco minutos passassem, para ver se esta seria também uma disciplina onde iríamos aprender coisa nenhuma.
Apresentou-se. Era advogado, todos sabíamos, e era nativo do burgo o que também não era novidade. A surpresa era a combinação da sua juventude com a sua naturalidade. Com excepção dos professores mais velhos, que vinham do tempo da ditadura, nunca tivéramos um professor da nossa terra quase tão jovem quanto nós. Já não me lembro muito bem mas disse qualquer coisa sobre a falta de material de apoio ao programa da disciplina. Penso que foi isso porque não tínhamos manual e passamos o ano a escrever o que ele nos ditava. Ainda estudei para o primeiro teste mas não voltei a fazê-lo. Ele permitia consultas aos apontamentos durante a prova escrita, o que me fez rir ao pensar na saia escocesa da Clara cujo avesso estava pejado de cábulas cosidas ao tecido axadrezado. Era evidente que se tratava de uma disciplina para encher chouriços. Ainda lhe concedemos uns momentos de silêncio no qual a sua voz se fez ouvir. Não restavam dúvidas que conquistara a nossa simpatia, mas não como professor e muito menos pelo interesse da disciplina que era nenhum. Ao fim dos famosos cinco minutos, já as vozes se levantavam falando umas com as outras, abafando a sua, que era fraca, e foi de novo nos lábios que tentei ouvir o que ele dizia. Mas não ouvia. Os olhos foram descendo do rosto para o casaco azul-escuro com botões metálicos dourados e daí a nada já prestava mais atenção ao que os colegas diziam, para logo de seguida os ignorar também e fixar o olhar nas vidraças.
Tive muita pena porque teria sido um prazer ter um professor assim, por quem instantaneamente sentimos empatia e ao mesmo tempo nos ensina alguma coisa útil, mas o que ele realmente sabia guardava para si. Ninguém se teria importado se nos tivesse falado de poesia, mas não se sabia na altura que ele era poeta – só começou a editar em 1987 – e quando anos mais tarde li numa entrevista sua, “É como fazer equilibrismo: muito docente, fico sem escritor; muito escritor, fico sem docente”, tive ainda mais pena. Eu não tive nem o docente, nem o escritor. Éramos pequenos seres na ratoeira.

3 comentários:

blue disse...

olá Maria, cheguei aqui pel'A Terceira Noite.
gostei muito. digo-o neste post por ter conhecido o Carlos Poças Falcão há muitos anos, quando eu vivia em Guimarães, era eu uma criança...
voltarei. até lá.

Maria N. disse...

obrigada pela visita e pelas tuas palavras, blue. Também me conheces :)

blue disse...

quem és tu que eu conheço?