sábado, 21 de junho de 2008

prova dos nove

Entra no carro eufórico, cheio de alegria porque me vai dar uma alegria.
- Mãe, passei!
Passou? Claro que passou, já sabia que iria passar porque hoje só não passam as crianças se os pais não deixarem, mas ele não sabe disso. Andava preocupado e chorou dias antes quando lhe perguntei se tinha trabalhos de casa. Sim, tinha trabalhos de casa e desatou as lágrimas. Eram duas contas de subtrair, as mesmas que saíram no teste e que ele tinha já feito na aula, mas a professora diz sempre que está mal, mãe, ela diz sempre que está mal, e a prova real não dá certo, nem a prova dos nove, mãe, vou ter o teste todo mal; e na prova de aferição enganei-me na composição; tinha de escolher um objecto e imaginar que era esse objecto, mas imaginei que era escritor.
Fez o quarto ano duas vezes e ninguém lhe pode dizer que chumbou porque ele diz logo “Não chumbei, estou só a repetir” e pensou que duas contas mal feitas, mais o engano na prova de aferição de Língua Portuguesa, era quanto bastava para ter de repetir novamente o quarto ano. Mas agora era o último dia de aulas e finalmente desfez-se a ansiedade.
- Nas provas de aferição, mãe, tirei B a Matemática e C a Português e a professora disse que vou para o quinto ano! Não estás contente? Posso comer um gelado?
Pergunto-lhe o que é o envelope enorme que traz na mão. É um diploma, mãe. Abro-o e fico pasmada a olhar para a menção honrosa da Caminho atribuída ao texto original que ele escreveu na aula para o concurso “Uma Aventura”. O meu dez anos que repetiu o quarto ano e tantas dificuldades tem no português, imaginou ser escritor e recebeu uma menção honrosa da Caminho. Sorri para o meu sorriso. Tudo o que ele quer é ver-me feliz e comer um gelado. É a minha prova dos nove; apesar das dificuldades tudo vai dar certo. Não sou a única a perceber que para lá dessas dificuldades está um pequeno ser cheio de potencialidades.

Comprei três gelados e em casa sentamo-nos com o meu catorze anos, juntinhos todos os três, e os quatro gatinhos no colo, a comer um magnum classic, devagarinho.

Sem comentários: