sábado, 21 de junho de 2008

interrupção


Erwin Olaf


Mais tarde ou mais cedo todos lhe passam pelas mãos. A nossa geração chegou à idade dos enfartes e o piso da cardiologia é a sala de visitas de reencontros que seriam impossíveis se não se desgastasse o coração e se não fosse ela enfermeira do coração. A distância, mesmo quando é próxima, custa muito a desfazer; mesmo quando com cabos se lhes atam os ossos, presos entre as camas e os monitores, aos cateteres e aos soros que escorrem para dentro dos corpos. Ali deitados pregam os olhos no tecto e não sabem se é alívio, se é embaraço, descobrir num rosto conhecido o dono deles. Aquele rosto será por uns dias o dono deles; pertence a mãos que sabem curar. Terão de falar; não se pode fazer o que se fez durante anos; ignorar uma pessoa que se conheceu toda a vida, quando essa pessoa os despe, toca, lhes interpreta o ritmo cardíaco, lhes segura o coração doente nas mãos.
Se ao menos não tivesse rosto, se não tivesse cabeça.
Eles não sabem. Para eles é a primeira vez. Para ela é mais uma vez. Já desenvolveu imunidade às distâncias involuntariamente quebradas e sabe exactamente o que deve fazer para os libertar do embaraço e fazê-los sentirem-se menos frágeis. Corta a cabeça. O rosto conhecido sem memórias é muito reconfortante.

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