quinta-feira, 26 de junho de 2008

cebola com broa

Acabo de chegar do café da Prazeres. Ela já sabe ao que vou, comprar cigarros, e faz-me esperar. Com o prato de broa e cebola cortada na mão, discute com o velhote pequenino sobre qualquer coisa que não consigo perceber. Pintou o cabelo e o rosto está mais luminoso do que o costume, quase bonito. O velhote vai dizendo o que tem a dizer por entre os palavrões e a Prazeres não se faz rogada e atira-lhe outros tantos. Alguém que está ao balcão manda calar o velhote, por minha causa; têm medo que me aborreça com tanto palavrão. Não me aborrece nada. Não tiro os olhos do prato da broa com cebola cortada que parece, não tarda nada, irá voar em direcção ao velhote, mas não; a Prazeres coloca-o por baixo dos bigodes do Berto que lhe pede uma malga de vinho. Acalmam-se. Amanhã já não será nada e o velhote lá estará de novo, de manhã, de tarde e à noite.
Dos trezentos metros que separam a minha casa do café da Prazeres, apenas cinquenta têm alguma luminosidade de noite, derramada pelo único lampião de rua entre o café e os muros da quinta. O resto do percurso divide-se entre o caminho de servidão que leva ao meu portão e à quinta da Dona Emília, mais abaixo, e o caminho já dentro dos meus campos. Não há luz nenhuma a não ser a da lua quando está cheia. Caminhei na escuridão por entre o roçagar das árvores e lembrei-me de uma história que me contou a minha tia Isabel, sobre uma noite em que também ela caminhava na escuridão em direcção a casa. Destemida, ria-se das histórias de lobisomens e bruxas que contavam na aldeia mas a partir dessa noite nunca mais se riu. Disse que quando subia a ladeira se lhe encostou uma coisa peluda ao braço nu, senti os pêlos da coisa no meu braço, e logo se lhe arrepiaram os dela. Ficou nessa noite a saber onde começavam as raízes do cabelo que, segundo ela, se pôs literalmente em pé. Correu até casa e assustou a minha avó com tanta palidez. Fez-lhe um chá de tília e atou-lhe um colar de alhos ao pescoço.
Venho andando nestas recordações quando sinto pêlo a roçar-me as pernas. Paro e vejo o gato preto, miau, de olhos verdes a olhar para mim. Andou fugido todo o dia e não sei se comeu alguma coisa, se teve sorte na caçada, mas tenho peixe cozido em casa que guardei para ele. Não me assustei mas enquanto o gato preto comia o peixe, bebi um chá de tília. Tenho saudades dos olhos azuis da tia Isabel, das histórias dela, de ser pequena e comer cebola recheada de sal com broa. A minha madrinha arrancava a cebola da terra e logo ali a descascava, fazia-lhe dois cortes em cruz onde introduzia o sal, e dava-ma a comer com uma grande fatia de broa de milho. Hoje já não sabem ao mesmo, as cebolas.

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