quinta-feira, 26 de junho de 2008

bule negro



Não se ouvem os velhos.
Há dias em que só preciso de ser eu e a casa; arrumar gavetas, organizar papeladas, limpar o pó naqueles sítios onde não chego sem a ajuda de uma escada, esvaziar o louceiro e lavar o serviço Vista Alegre que o meu pai me ofereceu, escolher uma toalha de mesa e ficar a olhar para o velho bule negro que encontramos cá em casa, dentro do armário de pedra, quando nos mudamos para aqui. O bule negro tem bico e pega de metal e a tampa não pode ser a original; esta é de barro tosco e, embora sirva perfeitamente, não diz a bota com a perdigota. Nada que incomodasse a dona do bule que por certo ao partir-se a tampa improvisou uma de barro. Não seria por falta de tampa a condizer que se deixaria de beber o chá.

Tento imaginar a dona do bule. Também ela, ao apanhar a roupa lavada estendida ao sol, com o cabelo abalado pela brisa e o sol na pele, a encostava ao rosto para respirar o odor a lavado que dela se desprendia; retirava meticulosamente os insectos pretos que se colavam à roupa, pensando que era o cheiro a lavado que os atraía. Alguns escapavam ao escrutínio e só dava por eles quando brunia a roupa com o velho ferro aquecido a carvão. O vestido de noiva minhota também é negro. Brune-o cuidadosamente porque será com ele que será enterrada; qué-lo sempre impecável, lavadinho e prontinho para vestir, porque Deus quando chama não avisa ninguém. Há-de regressar ao fundo do baú, embrulhado num pano de linho, entre os remédios para as traças e as almofadinhas recheadas de lavanda.
Fervia a água para o chá e chegavam as outras mulheres da casa a quem a sede interrompia os muitos afazeres. Estendida a toalha na mesa e o serviço de chá sobre ela, uma trazia o pão e a manteiga, marmelada e queijo, ou talvez um bolo, sentavam-se passando o bule negro de mão em mão. Nenhuma se incomodava com a tampa tosca de barro.
O vestido negro de noiva minhota há muito se deve ter desfeito, junto com a carne e os ossos. Ficou o bule negro. Não se ouvem os velhos mas ouvem-se os mortos nos objectos que deixaram para trás.

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