segunda-feira, 30 de junho de 2008

A Indira, a Maria, a Golda, a Margaret, a Benazir, a Angela


Erwin Olaf

Não me interessa saber se a Indira, a Maria, a Golda, a Margaret, a Benazir e a Angela, governaram como mulheres ou homens. Ao longo dos séculos, os homens exerceram o poder através da intimidação e da opressão, guiados pelo desejo de derrotar e humilhar os que se lhes opunham. Hoje, os que exercem o poder, concentram-se mais em procurar interesses comuns e chegar a conclusões em que ambos saiam vencedores. Não há nada mais feminino do que isto. Interessa-me saber que o poder passou a incluir características e preocupações femininas. Já não se governa só para um género, governa-se para ambos.
Não é no comportamento político dos géneros que estão as minhas preocupações. Preocupa-me o quotidiano cheio de descriminações encapotadas, nas empresas, na política, na ciência, na literatura, nas fábricas, em casa, em quase tudo. Preocupa-me que sejam tão poucas a exercer o poder.

sábado, 28 de junho de 2008

poema da gata preta que morreu

A minha sobrinha de 11 anos escreveu hoje este poema sobre a gata preta que morreu, porque quis, porque lhe apeteceu, porque ainda pensa na gata e se imaginou sendo ela.


Pela sombra aqui vou eu, toda vaidosa e luxuosa,
Sou mimalha mas muito querida.

Aparece-me assim do nada uma quinta,
Que hei-de eu fazer?
Hei-de explorá-la ou arranjar donos?!

Dei a volta ao mundo dentro da minha cabeça.
Foi mais difícil do que eu pensava!
Finalmente!
Hei-de arranjar donos.

Passado dias, dias e longos dias, ainda de vida
Apareceu-me do nada uma luz tão brilhante!
O que devia fazer, não podia fazer nada
De repente comecei a voar!?
Não acreditei naquilo, Deus estava lá a minha espera!
E também consegui ver os meus 2 filhinhos a Tareca e a Vitória.

Mas não sabia o que estava a passar-se!
Depois é que vi os meus donos ali, lá no fundo a chorar!
As lágrimas escorriam muito depressa,
como se estivéssemos a escorregar num escorrega muito longo que nunca acabava!

Mais tarde comecei a lembrar-me das coisas!
Era tão terrível, tão triste, tão horroroso que poderia partir o coração a qualquer pessoa.
Eu tinha morrido! Que triste!
A minha amiguinha ali a chorar que era a minha segunda preferida.
Ela dava-me de comer, fazia miminhos e quando queria dava-me colo.
Era a minha amiga Maria.

Pelo menos sei que todos estão bem!
Os meus bebés, os meus filhos, os meus donos, as minhas amigas...

Ninguém sabe porque os animais morrem cedo de mais.
Minha bichaninha eras pretinha mas não interessa para ninguém
Pelo menos estás dentro dos nossos corações.
Voa com Deus e vive feliz como viveste aqui.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

citações

1. "nesta altura o jogo já estava perdido… e havia indignação, daquela que dá para mandar uns murros na mesa e que da para rir com o ridículo… os últimos minutos valeram por uma parte inteira, toda a concentração focava o verde da televisão a transpirar o eterno sentimento português… tá quase, tá quase… tá quase… vai… vai… vai… épa foda-se já acabou…
tanto dinheiro gasto em bandeiras para esta merda…" - Indigente Andrajoso

Diverti-me bastante ao ler este texto. Somos o país do quase lá e do
(...) quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
do Mário de Sá-Carneiro que era, como se sabe, português


2. "For the moment, all is peaceful and quiet. The political class, which loves the unitary European state precisely because it so completely escapes democratic or any other oversight (let alone control), and for whom it acts as a giant pension fund, holds the upper hand for now. But tensions and frustrations in Europe have a history of expressing themselves in nasty ways." - Arte da Fuga, citando Theodore Dalrymple sobre a União Europeia.

Não podia faltar o típico lugar comum repetido até à exaustão pelos comentadores americanos, o tal do nasty ways, que me faz pensar que há gente do outro lado do Atlântico que sonha com uma guerra à antiga, daquelas que eles ganham sempre. Os Estados Unidos só estão ainda unidos porque as suas partes são novas. Acabarão também eles por sucumbir à tendência histórica e global para a fragmentação. Qualquer europeu compreende isto e não pode deixar de sorrir ao ler coisas assim.

3. « Nas cidades as maiores provas de amor não estão nos casais de namorados que se entregam aos beijos nos banquinhos dos jardins. Nas cidades as mais fortes provas de amor continuam a estar nos cidadãos que passeiam os seus cães terrivelmente feios como se passeassem sublimes criaturas. » - do Nuno Costa Santos no Sinusite Crónica

A criatura amada é sempre sublime. Eu sei de um cão que passeia o dono terrivelmente feio e está convencido, o cão, que leva ali uma grande coisa.


4. A mulher com cara de cão no blog da Isabela porque diz bem com ela. Não sei se a Isabela acha as suas cadelas sublimes, ou as cadelas a ela, mas é amor sem dúvida.

cebola com broa

Acabo de chegar do café da Prazeres. Ela já sabe ao que vou, comprar cigarros, e faz-me esperar. Com o prato de broa e cebola cortada na mão, discute com o velhote pequenino sobre qualquer coisa que não consigo perceber. Pintou o cabelo e o rosto está mais luminoso do que o costume, quase bonito. O velhote vai dizendo o que tem a dizer por entre os palavrões e a Prazeres não se faz rogada e atira-lhe outros tantos. Alguém que está ao balcão manda calar o velhote, por minha causa; têm medo que me aborreça com tanto palavrão. Não me aborrece nada. Não tiro os olhos do prato da broa com cebola cortada que parece, não tarda nada, irá voar em direcção ao velhote, mas não; a Prazeres coloca-o por baixo dos bigodes do Berto que lhe pede uma malga de vinho. Acalmam-se. Amanhã já não será nada e o velhote lá estará de novo, de manhã, de tarde e à noite.
Dos trezentos metros que separam a minha casa do café da Prazeres, apenas cinquenta têm alguma luminosidade de noite, derramada pelo único lampião de rua entre o café e os muros da quinta. O resto do percurso divide-se entre o caminho de servidão que leva ao meu portão e à quinta da Dona Emília, mais abaixo, e o caminho já dentro dos meus campos. Não há luz nenhuma a não ser a da lua quando está cheia. Caminhei na escuridão por entre o roçagar das árvores e lembrei-me de uma história que me contou a minha tia Isabel, sobre uma noite em que também ela caminhava na escuridão em direcção a casa. Destemida, ria-se das histórias de lobisomens e bruxas que contavam na aldeia mas a partir dessa noite nunca mais se riu. Disse que quando subia a ladeira se lhe encostou uma coisa peluda ao braço nu, senti os pêlos da coisa no meu braço, e logo se lhe arrepiaram os dela. Ficou nessa noite a saber onde começavam as raízes do cabelo que, segundo ela, se pôs literalmente em pé. Correu até casa e assustou a minha avó com tanta palidez. Fez-lhe um chá de tília e atou-lhe um colar de alhos ao pescoço.
Venho andando nestas recordações quando sinto pêlo a roçar-me as pernas. Paro e vejo o gato preto, miau, de olhos verdes a olhar para mim. Andou fugido todo o dia e não sei se comeu alguma coisa, se teve sorte na caçada, mas tenho peixe cozido em casa que guardei para ele. Não me assustei mas enquanto o gato preto comia o peixe, bebi um chá de tília. Tenho saudades dos olhos azuis da tia Isabel, das histórias dela, de ser pequena e comer cebola recheada de sal com broa. A minha madrinha arrancava a cebola da terra e logo ali a descascava, fazia-lhe dois cortes em cruz onde introduzia o sal, e dava-ma a comer com uma grande fatia de broa de milho. Hoje já não sabem ao mesmo, as cebolas.


My hands are tied do José Paulo Andrade


DEITADO FRENTE Ó MAR


Lingua proletaria do meu pobo
eu faloa porque si, porque me gusta
porque me peta e quero e dame a gana
porque me sae de dentro, alá do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ó ver tantos patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sen raíces
que ó pór a garabata xa non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
fala-la fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
mariñeiros, labregos da linguaxe,
remo e arado, proa e rella sempre.
Eu faloa porque si, porque me gusta
e quero estar cos meus, coa xente que sufren longo
unha historia contada noutra lingua.
Non falo prós soberbios,
non falo prós ruíns e poderosos,
non falo prós finchados,
non falo prós estupidos,
non falo prós valeiros,
que falo prós que aguantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotío;
prós que súan e choran
un pranto cotián de volvoretas,
de lume e vento sobre os ollos núos.
Eu non podo arredar as miñas verbas de
tódolos que sufren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra miña,
berce da miña estirpe,
Galicia, doce mágoa das Españas,
deitada rente ó mar, ise camiño...

poema do Galego na corte do rei Gnu

bule negro



Não se ouvem os velhos.
Há dias em que só preciso de ser eu e a casa; arrumar gavetas, organizar papeladas, limpar o pó naqueles sítios onde não chego sem a ajuda de uma escada, esvaziar o louceiro e lavar o serviço Vista Alegre que o meu pai me ofereceu, escolher uma toalha de mesa e ficar a olhar para o velho bule negro que encontramos cá em casa, dentro do armário de pedra, quando nos mudamos para aqui. O bule negro tem bico e pega de metal e a tampa não pode ser a original; esta é de barro tosco e, embora sirva perfeitamente, não diz a bota com a perdigota. Nada que incomodasse a dona do bule que por certo ao partir-se a tampa improvisou uma de barro. Não seria por falta de tampa a condizer que se deixaria de beber o chá.

Tento imaginar a dona do bule. Também ela, ao apanhar a roupa lavada estendida ao sol, com o cabelo abalado pela brisa e o sol na pele, a encostava ao rosto para respirar o odor a lavado que dela se desprendia; retirava meticulosamente os insectos pretos que se colavam à roupa, pensando que era o cheiro a lavado que os atraía. Alguns escapavam ao escrutínio e só dava por eles quando brunia a roupa com o velho ferro aquecido a carvão. O vestido de noiva minhota também é negro. Brune-o cuidadosamente porque será com ele que será enterrada; qué-lo sempre impecável, lavadinho e prontinho para vestir, porque Deus quando chama não avisa ninguém. Há-de regressar ao fundo do baú, embrulhado num pano de linho, entre os remédios para as traças e as almofadinhas recheadas de lavanda.
Fervia a água para o chá e chegavam as outras mulheres da casa a quem a sede interrompia os muitos afazeres. Estendida a toalha na mesa e o serviço de chá sobre ela, uma trazia o pão e a manteiga, marmelada e queijo, ou talvez um bolo, sentavam-se passando o bule negro de mão em mão. Nenhuma se incomodava com a tampa tosca de barro.
O vestido negro de noiva minhota há muito se deve ter desfeito, junto com a carne e os ossos. Ficou o bule negro. Não se ouvem os velhos mas ouvem-se os mortos nos objectos que deixaram para trás.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

arejar palavras

Não rebusco as palavras. Um jornal deve usar uma linguagem cuidada mas simples, acessível ao maior número possível de pessoas. Um jornal não pretende ser uma obra de arte mas um texto pode ser simples e ser uma obra de arte. Por vezes encontro textos que parecem querer dizer alguma coisa mas só o dizem, a mim, depois de ter consultado o dicionário. O meu dicionário de bolso é muito incompleto e o outro, o tal que tem tudo, está dividido em calhamaços grossos e pesados. Não posso transportá-lo comigo. Adicionem-se as citações em latim sem a respectiva tradução e aquilo que parecia querer dizer alguma coisa deixa de o fazer. O texto torna-se supérfluo, para mim e para aqueles que como eu não coleccionaram palavras portuguesas. Quando me interessa muito desvendar um texto desses, aponto as palavras que não conheço na minha sebenta, para depois procurar o significado, e já me aconteceu, feita a tradução, chegar à conclusão que afinal o texto nada dizia. Era só uma exibição de palavras. Talvez o autor fosse pretensioso ou talvez achasse que as palavras confinadas às catacumbas dos calhamaços também tivessem o direito de lá sair, para serem arejadas, mesmo não fazendo sentido de mãos dadas umas com as outras. Há pessoas que passam a vida a arejar palavras.

sábado, 21 de junho de 2008

prova dos nove

Entra no carro eufórico, cheio de alegria porque me vai dar uma alegria.
- Mãe, passei!
Passou? Claro que passou, já sabia que iria passar porque hoje só não passam as crianças se os pais não deixarem, mas ele não sabe disso. Andava preocupado e chorou dias antes quando lhe perguntei se tinha trabalhos de casa. Sim, tinha trabalhos de casa e desatou as lágrimas. Eram duas contas de subtrair, as mesmas que saíram no teste e que ele tinha já feito na aula, mas a professora diz sempre que está mal, mãe, ela diz sempre que está mal, e a prova real não dá certo, nem a prova dos nove, mãe, vou ter o teste todo mal; e na prova de aferição enganei-me na composição; tinha de escolher um objecto e imaginar que era esse objecto, mas imaginei que era escritor.
Fez o quarto ano duas vezes e ninguém lhe pode dizer que chumbou porque ele diz logo “Não chumbei, estou só a repetir” e pensou que duas contas mal feitas, mais o engano na prova de aferição de Língua Portuguesa, era quanto bastava para ter de repetir novamente o quarto ano. Mas agora era o último dia de aulas e finalmente desfez-se a ansiedade.
- Nas provas de aferição, mãe, tirei B a Matemática e C a Português e a professora disse que vou para o quinto ano! Não estás contente? Posso comer um gelado?
Pergunto-lhe o que é o envelope enorme que traz na mão. É um diploma, mãe. Abro-o e fico pasmada a olhar para a menção honrosa da Caminho atribuída ao texto original que ele escreveu na aula para o concurso “Uma Aventura”. O meu dez anos que repetiu o quarto ano e tantas dificuldades tem no português, imaginou ser escritor e recebeu uma menção honrosa da Caminho. Sorri para o meu sorriso. Tudo o que ele quer é ver-me feliz e comer um gelado. É a minha prova dos nove; apesar das dificuldades tudo vai dar certo. Não sou a única a perceber que para lá dessas dificuldades está um pequeno ser cheio de potencialidades.

Comprei três gelados e em casa sentamo-nos com o meu catorze anos, juntinhos todos os três, e os quatro gatinhos no colo, a comer um magnum classic, devagarinho.

interrupção


Erwin Olaf


Mais tarde ou mais cedo todos lhe passam pelas mãos. A nossa geração chegou à idade dos enfartes e o piso da cardiologia é a sala de visitas de reencontros que seriam impossíveis se não se desgastasse o coração e se não fosse ela enfermeira do coração. A distância, mesmo quando é próxima, custa muito a desfazer; mesmo quando com cabos se lhes atam os ossos, presos entre as camas e os monitores, aos cateteres e aos soros que escorrem para dentro dos corpos. Ali deitados pregam os olhos no tecto e não sabem se é alívio, se é embaraço, descobrir num rosto conhecido o dono deles. Aquele rosto será por uns dias o dono deles; pertence a mãos que sabem curar. Terão de falar; não se pode fazer o que se fez durante anos; ignorar uma pessoa que se conheceu toda a vida, quando essa pessoa os despe, toca, lhes interpreta o ritmo cardíaco, lhes segura o coração doente nas mãos.
Se ao menos não tivesse rosto, se não tivesse cabeça.
Eles não sabem. Para eles é a primeira vez. Para ela é mais uma vez. Já desenvolveu imunidade às distâncias involuntariamente quebradas e sabe exactamente o que deve fazer para os libertar do embaraço e fazê-los sentirem-se menos frágeis. Corta a cabeça. O rosto conhecido sem memórias é muito reconfortante.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

pintura de bob dylan em Londres







Bob Dylan
1 - Statue of Liberty
2 - Bragg apartment, New York City
3 - Women in Red Lion pub
4 - Women on a bed

terça-feira, 10 de junho de 2008

citações

1. "PCP quer explicações de Cavaco Silva pela utilização da expressão «dia da raça»
O PCP exigiu hoje que o Presidente da República explique aos portugueses a utilização do termo «dia da raça» para se referir ao 10 de Junho, considerando tratar-se de «uma afimação grave»"
- no Sol de hoje..

"A imbecilidade não tem cor, pelo que era natural que uma exposição que reunia as amostras mais evidentes da imbecilidade de direita fosse contestada por uma mirrada minoria de imbecis de esquerda" - Umberto Eco in A Ilusão Realista

2. "Todos os anos pelo Natal via, com satisfação, o meu pequeno batalhão de estropiadas ser substituído por bonecas tão lindas, tão perfeitas, que me dava logo vontade de lhes deixar a minha marca pessoal. Que tal abrir-lhes um buraco na boca para pô-las a comer a sério? " - pela Teresa Ribeiro no Corta-Fitas (excerto)

Este bonito texto da Teresa levou-me à minha infância. Em certas coisas não cresci; às vezes dá-me vontade de pintar bigodes nas bonecas da bomba inteligente, como fazia em criança às bonecas das revistas da minha mãe.

pequenos seres na ratoeira



Podia marcar as incursões do sol
por esta sala. Alimentar uma esperança
solar. Mas as estações são indomáveis
e uma casa é um jogo de janelas
que se fecham. Mosca inerte nas vidraças
laranja que apodrece sobre a mesa:
eis os pequenos seres na ratoeira.

Carlos Poças Falcão




Era o professor de Relações Públicas. Eu já o conhecia de vista – quem cresce numa cidade pequena conhece toda a gente, senão da boca e das mãos, dos olhos. Entrou sorrindo timidamente na sala e vi os lábios pronunciarem «Boa tarde» mas não ouvi devido às vozes elevadas dos colegas e o arrastar das carteiras. A minha turma juntava-se na maioria das aulas e partia-se ao meio quando uns tinham Direito e outros tinham Jornalismo, quando uns tinham Francês e outros tinham Inglês, mas todos tínhamos Relações Públicas e assim, todos juntos, era mais difícil impor a ordem. Na aula de Filosofia, anterior a esta, todos percebêramos no primeiro instante que as aulas dessa disciplina, nesse ano, iriam ser uma festa. Os primeiros cinco minutos do professor com os seus alunos ditam o que o resto do ano lectivo vai ser e agora, na apresentação do professor de Relações Públicas, com a turma ainda excitada da balbúrdia da aula anterior, eu esperava que os cinco minutos passassem, para ver se esta seria também uma disciplina onde iríamos aprender coisa nenhuma.
Apresentou-se. Era advogado, todos sabíamos, e era nativo do burgo o que também não era novidade. A surpresa era a combinação da sua juventude com a sua naturalidade. Com excepção dos professores mais velhos, que vinham do tempo da ditadura, nunca tivéramos um professor da nossa terra quase tão jovem quanto nós. Já não me lembro muito bem mas disse qualquer coisa sobre a falta de material de apoio ao programa da disciplina. Penso que foi isso porque não tínhamos manual e passamos o ano a escrever o que ele nos ditava. Ainda estudei para o primeiro teste mas não voltei a fazê-lo. Ele permitia consultas aos apontamentos durante a prova escrita, o que me fez rir ao pensar na saia escocesa da Clara cujo avesso estava pejado de cábulas cosidas ao tecido axadrezado. Era evidente que se tratava de uma disciplina para encher chouriços. Ainda lhe concedemos uns momentos de silêncio no qual a sua voz se fez ouvir. Não restavam dúvidas que conquistara a nossa simpatia, mas não como professor e muito menos pelo interesse da disciplina que era nenhum. Ao fim dos famosos cinco minutos, já as vozes se levantavam falando umas com as outras, abafando a sua, que era fraca, e foi de novo nos lábios que tentei ouvir o que ele dizia. Mas não ouvia. Os olhos foram descendo do rosto para o casaco azul-escuro com botões metálicos dourados e daí a nada já prestava mais atenção ao que os colegas diziam, para logo de seguida os ignorar também e fixar o olhar nas vidraças.
Tive muita pena porque teria sido um prazer ter um professor assim, por quem instantaneamente sentimos empatia e ao mesmo tempo nos ensina alguma coisa útil, mas o que ele realmente sabia guardava para si. Ninguém se teria importado se nos tivesse falado de poesia, mas não se sabia na altura que ele era poeta – só começou a editar em 1987 – e quando anos mais tarde li numa entrevista sua, “É como fazer equilibrismo: muito docente, fico sem escritor; muito escritor, fico sem docente”, tive ainda mais pena. Eu não tive nem o docente, nem o escritor. Éramos pequenos seres na ratoeira.

sexta-feira, 6 de junho de 2008


fotografia de Michelle Clement

A água corre, escorre, ou desliza. Fica o barulho no ar, como o destino. Faz alarido dentro da casa vazia, no desencontro, no silêncio. Doem-me. Dói-me a água, cristal que escorre luz, e o ruído em volta de mim. Dói-me ser. Dói-me tudo e não espero nada senão o equilíbrio. Equilibro-me pelo que vejo. Quero ver o mar.
Atenta: o dia é tão fundo como o mar. Tão disperso como o vento. Deslizo o corpo pelo dia acima e o dia não avisa os rostos e as memórias, não avisa o tempo mas acompanho-o a compasso no ritmo de todas as horas. Não sou capaz de dissecar o dia em partes diferentes sem nada que as ligue entre si, de viver os momentos e no fim nada saber sobre eles.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

gata preta

A gata preta que não era de ninguém saltou para apanhar o pássaro mas desequilibrou-se e caiu quebrando a quietude da água. A Isabel ouviu a água romper e de longe viu a gata lutar e a lutar correu para a salvar mas chegou tarde. Afogou-se.
Talvez fosse a última vida que lhe restava.
Deixou quatro crias entaladas no feno que está no alpendre; quatro gatinhos que eu agora alimento, limpo e aconchego. É só até terem idade suficiente para poderem sobreviver sozinhos, para que depois, tal como a mãe, possam não ser de ninguém.