sábado, 3 de maio de 2008

a quinta

Quase não se pode chamar jardim ao rectângulo verde nas traseiras da casa. Cresce como lhe apetece, quase sem intervenção humana. As flores, na sua maioria silvestres, vieram para criar raízes por acaso e a relva não é relva mas verdes cujas sementes o vento traz. Os limoeiros e as laranjeiras foram plantados, assim como a tília, a árvore cujo nome ninguém sabe, os choupos, o plátano e os pinheiros, depois de terem servido de árvore de Natal quando ainda estavam em vaso. As restantes árvores nasceram das outras ou então já lá estão há muitos anos, como o velho castanheiro que os antigos da aldeia não se lembram de ver crescer. Já era assim nas suas infâncias. O pequeno declive junto ao muro que suporta a eira, onde Karl gastou muitas horas e suor, moldando e fertilizando a terra, fazendo canteiros para dar um ar civilizado ao jardim, voltou ao seu estado natural, e das flores que Adeline lá semeou e plantou já só resta a roseira que teima em florir todos os anos. Junto à eira ergue-se o alpendre onde Isabel guarda as batatas, as cebolas e o feno e onde a gata preta, que não é de ninguém, esconde as suas ninhadas. Para lá do alpendre ficam os campos que se estendem até à estrada. O campo do meio fora em tempos reservado para as oliveiras, que sobrevivem ainda entre as outras árvores, e o campo de baixo foi transformado em pomar. Os dois campos restantes são cultivados pela Isabel e pelo Sr. José, embora este por vezes não cultive a o campo que lhe foi emprestado e o use para pasto das vacas e das ovelhas. Os muros que circundavam a quinta há muito que ruíram e as pedras que restam estão cobertas por silvas. É lá que as crianças colhem as amoras no Verão.

A casa é de traço típico minhoto, toda em granito, onde não falta a escadaria em pedra, que conduz ao pequeno alpendre sustentado por colunas, e as arcadas que escondem a antiga adega. A construção remonta ao século XVIII, conforme se lê na inscrição gravada por cima do portão principal e que eternizou assim o nome do primeiro dono, um tal de Meireles. Tem ainda anexadas várias dependências de um só piso, também em granito, onde em tempos se guardavam as ferramentas agrícolas e os animais domésticos, e onde se fazia o vinho. O velho lagar ainda lá está, fechado entre muros, abandonado às teias de aranha e à vegetação que vai conseguindo infiltrar-se e crescer no chão de terra. O telhado já ruiu em pedaços e faltam pedras nos muros. Estas dependências aguardam ainda restauro. O conjunto formado pela casa original, o prolongamento que lhe foi adicionado e os anexos, fecha-se num rectângulo formando um pátio no centro que no Verão fica coberto pelos ramos da videira, enchendo de frescura os fundos da casa.

O Sr. José, que é um dos mais antigos habitantes da aldeia, lembra-se de ouvir dizer na sua infância que esta fora a única casa numa extensa área que se prolongava até ao monte da Marinha. Todas as terras até ao monte, e ainda uma parte dele, pertenciam a esta quinta. Os sucessivos herdeiros e proprietários foram vendendo as terras e hoje toda essa área se encontra dividida pelas casas que foram sendo construídas; as mais antigas, ainda em granito, pelos trabalhadores rurais e as mais recentes na sua maioria por imigrantes, de forma mais ou menos clandestina. Desde que o último Plano Director Municipal deixou de classificar esta área como zona agrícola, foram também feitos loteamentos. Gente da cidade mudou-se para aqui, para viver uma vida campestre, nos intervalos da urbanidade, mas sem sujar as mãos na terra. A população local beneficiou. Os empreiteiros conseguiram, no espaço de poucos meses, o que a Junta de Freguesia não conseguira em anos: a colocação de asfalto na estrada de terra batida que liga a aldeia à vila. A água canalizada e o saneamento vieram de seguida e o café da Prazeres prosperou, sem deixar, no entanto, de ter o aspecto pouco limpo e gorduroso que o caracteriza. O braço da ASAE não chega aqui pelo que ainda se fuma dentro do café e as moscas ainda pousam nos pastéis desprotegidos. Não passa pela cabeça de ninguém protestar ou denunciar. Regra geral fazem-se sempre orelhas moucas às ordens vindas de Lisboa.

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