quinta-feira, 29 de maio de 2008

carta

Nos dias úteis cerca-me o cimento, azulejos do lado norte e a sul o velho prédio caiado a branco, que o burgo em tempos construiu para alojar os portugueses de África. Ainda lá vive a D. Ana, rodeada de recordações de Moçambique, e às vezes a filha, quando o marido a põe fora de casa a pontapé. Os filhos há muito que morreram, de overdose. Mais abaixo, no prédio azul, mora ainda a tua mãe. Vejo-a caminhar pensativa, circunspecta nos próprios passos, quando regressa a casa depois de levar a tua sobrinha à escola primária. Vejo o teu irmão à porta da escola quase todos os dias quando lá vou buscar o meu dez anos.
Nos dias inúteis cerca-me o verde, o granito e as pessoas do campo de quem tanto gosto. Não sabes como eu gosto dos dias inúteis, das gentes e das coisas inúteis.

Isto poderia ser o início de uma carta. Haverias de ler a minha carta, manuscrita como já se não usa. Reconhecerias a caligrafia a querer ser torta, sem força para fugir à disciplina rectilínea que as mãos aprenderam em inúmeras lições de escrita em cadernos de duas linhas. Se quisesse escrever-te saberia encontrar o teu paradeiro – moro muito perto da casa da tua mãe, nos dias úteis – mas não te quero escrever.

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