domingo, 25 de maio de 2008

cabeças de frangos

É noite e tenho o jantar atrasado; o strüdel de legumes no forno com cara de quem não vai sair-se muito bem e o meu dez anos que aproveita o resto da massa para fazer figurinhas que recorta com os moldes de alumínio em forma de borboleta, passarinho, coração, estrelinha. Vou fazer bolachas, mãe. Provo o molho do frango estufado e batem-me no vidro da porta da cozinha. É o Sr. José que me veio trazer uma galinha.
- A minha patroa matou-a hoje, está fresquinha.
Espreito para dentro do saco e vejo a ave enorme com a cabeça agarrada ao pescoço.
- Se tiver qualquer pena ainda, desculpe, a mulher já não vê muito bem e eu não tenho coragem de matar. Disse que deitou muito sangue, é bom sinal. Pode comer à vontade que é limpinho, é pica-no-chão.
Aponta para o ar e diz que não pára de chover.
- Meu Deus, hoje choveu como um caraças, vão-se-me apodrecer as batatas. E o vinho? Nem quero pensar. Está-se a estragar todo e hoje que até saraiva caiu. Isto da agricultura está cada vez pior. Vim agora que a mulher até me ralhou; vai antes que eles vão para a cama e eu vim.
Agradeço-lhe a gentileza e ele fala-me das vacas. Estão todas prenhes e têm fome de andar nos campos a pastar. Impacientam-se e atiram com a cabeça contra as paredes.
- Quando as vejo assim já sei que querem vir cá para fora, mas hoje não as trouxe à conta da chuva que era muita.

À conta da chuva que era muita. O meu dez anos quer ver a galinha e fica admirado quando vê a cabeça. Os frangos do supermercado não têm cabeça e esta galinha tem uma de olhos fechados, e ele de olhos muito abertos:
- Mãe, para onde vão as cabeças dos frangos quando eles morrem?

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