sábado, 17 de maio de 2008

os brincos da tia alma


Ninguém sabe ao certo quantos anos têm estes brincos. A tia Alma sofre de Alzheimer e quando o homem morreu recusou o internamento. Adeline defendeu a decisão dela de ficar em casa, embora sozinha, enquanto a doença não progredisse e se limitasse a causar-lhe pequenas falhas de memória, mas quando Alma juntou a roupa suja e a meteu no forno, pensando tratar-se da máquina de lavar, provocando o pequeno incêndio que alarmou a vizinhança, Adeline cedeu e tratou do internamento. Não tardou muito até a tia Alma se esquecer de tudo e de todos e a sua casa foi vendida para pagar as despesas da instituição privada onde ainda está, pouco lhe faltando para chegar aos cem anos. O recheio da casa foi distribuído pelos parentes próximos e, como não tem filhos nem filhas, as suas jóias foram entregues a Adeline que é o que de mais parecido com uma filha a tia Alma tem. Não existem laços de sangue entre elas. Alma é a viúva do tio Reinhold, meio-irmão da mãe de Adeline e foi ele quem as ajudou a sair de Rostock, na antiga Alemanha de Leste, para a Suábia no fim da guerra.

Adeline nunca gostou de usar jóias, à excepção do anel de noivado e da aliança de casamento. Ela tem filhos mas não tem filhas, por isso, distribuiu as jóias pelas noras. Foi assim que os brincos antigos da tia Alma vieram parar às minhas mãos. Guardo-os com muito carinho junto com as jóias da minha mãe, e quando os uso lembro-me sempre da tia Alma. Também não tenho filhas e um dia os brincos serão entregues a uma nora. Os homens não ligam a estas coisas; não querem saber a história de jóias antigas, de panos bordados pelas avós, de bules de chá vindos da Bessarabia. Tal como Adeline eu também sei que são as mulheres quem preserva as memórias.

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