quinta-feira, 1 de maio de 2008

maias e novenas

Para a minha família, o mês de Maio passou a ser sinónimo de tragédia depois do incêndio que destruiu o sótão, com toda a papelada e objectos antigos que continha, e da explosão, poucos anos depois, que levou a mão esquerda do meu irmão. Convenceram-se os meus pais, pouco dados a acreditarem em coincidências, que era castigo. De quê e de quem não se sabia e pouco interessava. O sobrenatural manifesta-se, há formas de o contrariar e é melhor deixado sem explicações. Assim, sem certeza da origem do castigo, de 30 de Abril para o dia 1 de Maio a minha mãe colocava ramos de sabugueiro nas janelas e nas portas da casa, perante o espanto dos vizinhos que não viam as maias desde a infância, para impedir a entrada ao esconjurado, ao burro, às forças do mal, enfim ao que fosse que amaldiçoava a casa nesse mês.
A minha avó sabia todas essas coisas; da perigosíssima lua de Maio que segundo ela explicava os nervos do meu irmão mais novo, do diabo que mijava a louça toda, dos maus olhados, da preguiça, da fome, de todos os males que se introduziam nas casas, junto com a Primavera, se não estivessem protegidas. Para além das maias, a minha mãe, mesmo tendo pouca paciência para padres e beatas, todas as noites de Maio ia à igreja rezar a novena e enquanto desfiava as pedras do rosário contava os dias, uns atrás dos outros. Evitavam-se as viagens e observavam-se mais de perto as crianças; mil e um cuidados até o mês acabar. Quando acabava, toda a casa sossegava. Fossem as maias, fossem as novenas, alguma coisa tinha funcionado.

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