sexta-feira, 16 de maio de 2008

Adeline corria na neve em volta dos barracões e depois parava para ouvir o coração bater com força e aspirar o ar que penetrava nas narinas, tão gelado que conseguia sentir o frio chegar aos alvéolos. Estava viva, não era como as outras mulheres e crianças do barracão, de rostos baços de onde tinha sido sugada toda a beleza, e lábios que falavam de atrocidades que os soldados alemães tinham cometido, de odores fétidos que se escapuliam de chaminés e muitas cinzas. O pai dela nunca faria uma coisa dessas. Não lhe dissera ele que não queria matar ninguém? Que só disparava se atirassem primeiro sobre ele? Ele que nem uma galinha tinha coragem de matar; senhor de umas mãos enormes de ternura onde ela tantas vezes descansara o rosto, que esculpiam estatuetas em madeira enquanto sonhavam com cavalos selvagens e prados verdes a perder de vista.

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