quinta-feira, 29 de maio de 2008


nascimento de outra lua pelo meu dez anos

carta

Nos dias úteis cerca-me o cimento, azulejos do lado norte e a sul o velho prédio caiado a branco, que o burgo em tempos construiu para alojar os portugueses de África. Ainda lá vive a D. Ana, rodeada de recordações de Moçambique, e às vezes a filha, quando o marido a põe fora de casa a pontapé. Os filhos há muito que morreram, de overdose. Mais abaixo, no prédio azul, mora ainda a tua mãe. Vejo-a caminhar pensativa, circunspecta nos próprios passos, quando regressa a casa depois de levar a tua sobrinha à escola primária. Vejo o teu irmão à porta da escola quase todos os dias quando lá vou buscar o meu dez anos.
Nos dias inúteis cerca-me o verde, o granito e as pessoas do campo de quem tanto gosto. Não sabes como eu gosto dos dias inúteis, das gentes e das coisas inúteis.

Isto poderia ser o início de uma carta. Haverias de ler a minha carta, manuscrita como já se não usa. Reconhecerias a caligrafia a querer ser torta, sem força para fugir à disciplina rectilínea que as mãos aprenderam em inúmeras lições de escrita em cadernos de duas linhas. Se quisesse escrever-te saberia encontrar o teu paradeiro – moro muito perto da casa da tua mãe, nos dias úteis – mas não te quero escrever.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

donna-crisi

A mulher fascista deve ser físicamente sã, para poder tornar-se mãe de filhos sãos, segundo as «regras de vida» indicadas pelo Duce, no memorável discurso aos médicos. Por isso devem ser absolutamente eliminados os desenhos de figuras femininas artificialmente magras e masculinizadas que representam o tipo de mulher estéril da decadente civilização ocidental.
Gabinete de Imprensa da Presidência do Conselho Italiano
Desenhos e fotografias de modas femininas, 1931

Há muito que tinham matado o Duce mas aqui ainda sobrevivia o fascismo. Acho que era isso embora haja quem diga que era só autoritarismo, não interessa, não havia liberdade, excepto para mim, menina. Tinha toda a liberdade que queria.
Saía de casa de manhã cedo para subir a rua de Santa Maria até à escola primária de Santa Clara, só para meninas; de Inverno com a saia em pregas de fazenda grossa, meias brancas de lã, apanhava muito frio nos joelhos, e a bata branca por baixo do casaco, também ele de fazenda grossa, com bolsos fundos onde enfiava as castanhas que comprava na mulher que as vendia na esquina da praça. Aqueciam-me as mãos até à escola. Na Primavera, a fazenda grossa dava lugar aos tecidos leves que revelavam a minha ossatura. Já não comprava castanhas pelo simples motivo de não encontrar a mulher na esquina da praça, mas mais adiante havia outra que vendia fruta e me dizia que qualquer dia ia tocar piano nas minhas costelas.
Vinha almoçar a casa ao meio-dia – era só saltitar pela rua abaixo – e parava junto às portadas azuis do casarão onde vivia muita gente. A porta estava sempre aberta e lá dentro, ao fundo do enorme hall granítico, havia uma outra porta muito bonita com um arco de volta quebrada e vidros coloridos. Girando a maçaneta podia-se entrar e subir as escadas, mas tinha muito medo porque havia lá um cão. Um cão grande, que não se mexia; ficava ali estático a olhar para mim e a mostrar-me os dentes. Tinham-me dito que era um cão embalsamado, ou seja, um cão que não estava vivo nem morto. Diziam-me para não rodar a maçaneta porque o cão poderia comer-me – não era eu pele e osso e não sabia toda a gente que os cães gostavam de ossos? Eu só não entendia o motivo do cão nunca ter comido o rapaz que morava lá em cima que era um pau de virar tripas e todos os dias passava junto do morto-vivo.
Quando chegou a idade em que as meninas começam a olhar para o seu corpo, já o fascismo tinha acabado, eu olhava para o meu com tristeza. Visitavam-nos os parentes e nunca me diziam «estás mais bonita» ou «estás uma mulherzinha», como diziam à minha irmã. A mim diziam sempre «estás cada vez mais magra» ou «qualquer dia desapareces». Não me deixavam esquecer que não tinha mamas, que as ancas eram duas espadas que se espetavam para fora do corpo que a minha mãe tentava disfarçar costurando saias de roda para mim. O cão embalsamado só roía ossos de meninas.

domingo, 25 de maio de 2008

cabeças de frangos

É noite e tenho o jantar atrasado; o strüdel de legumes no forno com cara de quem não vai sair-se muito bem e o meu dez anos que aproveita o resto da massa para fazer figurinhas que recorta com os moldes de alumínio em forma de borboleta, passarinho, coração, estrelinha. Vou fazer bolachas, mãe. Provo o molho do frango estufado e batem-me no vidro da porta da cozinha. É o Sr. José que me veio trazer uma galinha.
- A minha patroa matou-a hoje, está fresquinha.
Espreito para dentro do saco e vejo a ave enorme com a cabeça agarrada ao pescoço.
- Se tiver qualquer pena ainda, desculpe, a mulher já não vê muito bem e eu não tenho coragem de matar. Disse que deitou muito sangue, é bom sinal. Pode comer à vontade que é limpinho, é pica-no-chão.
Aponta para o ar e diz que não pára de chover.
- Meu Deus, hoje choveu como um caraças, vão-se-me apodrecer as batatas. E o vinho? Nem quero pensar. Está-se a estragar todo e hoje que até saraiva caiu. Isto da agricultura está cada vez pior. Vim agora que a mulher até me ralhou; vai antes que eles vão para a cama e eu vim.
Agradeço-lhe a gentileza e ele fala-me das vacas. Estão todas prenhes e têm fome de andar nos campos a pastar. Impacientam-se e atiram com a cabeça contra as paredes.
- Quando as vejo assim já sei que querem vir cá para fora, mas hoje não as trouxe à conta da chuva que era muita.

À conta da chuva que era muita. O meu dez anos quer ver a galinha e fica admirado quando vê a cabeça. Os frangos do supermercado não têm cabeça e esta galinha tem uma de olhos fechados, e ele de olhos muito abertos:
- Mãe, para onde vão as cabeças dos frangos quando eles morrem?

quarta-feira, 21 de maio de 2008


Waldfrühling - Edmund Steppes 1924

linhas em desencontro pela avenida
perspectiva dentro, sombra acima.
desliza o pincel por este azul e por este verde
compõe folhas e pássaros, asas recolhidas
incontáveis gargalhadas que espreitam todos os amanhecer
em redor das colinas;
gritos espavoridos de todos os contos
segredos e murmúrios de fadas
feitiços e florestas.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

conselhos de mãe


Andrea Dezsö

A minha mãe disse-me sempre que as mulheres eram mais espertas que os homens. O meu pai concordava com ela. Mas também me disse que para bem da harmonia familiar, por vezes, era melhor fingir que não. É por isso que os homens chamam patroa às mulheres, dizia, não é por elas mandarem neles ou por serem assim uma espécie de mãe deles, é por lá no fundo saberem que elas sabem melhor.
"O Augusto
sentou-se e dei-lhe a ler o texto que escrevera e que ainda
se encontrava por arquivar ao lado da máquina de escre-
ver. Leu-o atentamente e, ao olhar para mim, contei-lhe o
sonho que tivera e o desejo intenso que sentira de comprar
a boneca. Sentia que se despia do seu mundo, para prestar
uma atenção toda aberta ao meu. Nos gestos imperceptíveis
que faz, mudando os pés de lugar, no modo como coloca
os dedos em volta do nariz e do bigode, no sorriso que
começa a sorrir a partir dos olhos e lhe vai descendo até às
extremidades da boca, sei então que me vai oferecer de
beber.
«Também queres chá?». Aceno que sim, e deixa-me
só para o ir preparar."
(Gabriela Llansol - Finita, Assírio e Alvim, pp. 141-142)
tirado do legente

Gosto muito deste texto, especialmente deste pedacinho.

sábado, 17 de maio de 2008

flores e frutos de maio


cerejas


flor de macieira

os brincos da tia alma


Ninguém sabe ao certo quantos anos têm estes brincos. A tia Alma sofre de Alzheimer e quando o homem morreu recusou o internamento. Adeline defendeu a decisão dela de ficar em casa, embora sozinha, enquanto a doença não progredisse e se limitasse a causar-lhe pequenas falhas de memória, mas quando Alma juntou a roupa suja e a meteu no forno, pensando tratar-se da máquina de lavar, provocando o pequeno incêndio que alarmou a vizinhança, Adeline cedeu e tratou do internamento. Não tardou muito até a tia Alma se esquecer de tudo e de todos e a sua casa foi vendida para pagar as despesas da instituição privada onde ainda está, pouco lhe faltando para chegar aos cem anos. O recheio da casa foi distribuído pelos parentes próximos e, como não tem filhos nem filhas, as suas jóias foram entregues a Adeline que é o que de mais parecido com uma filha a tia Alma tem. Não existem laços de sangue entre elas. Alma é a viúva do tio Reinhold, meio-irmão da mãe de Adeline e foi ele quem as ajudou a sair de Rostock, na antiga Alemanha de Leste, para a Suábia no fim da guerra.

Adeline nunca gostou de usar jóias, à excepção do anel de noivado e da aliança de casamento. Ela tem filhos mas não tem filhas, por isso, distribuiu as jóias pelas noras. Foi assim que os brincos antigos da tia Alma vieram parar às minhas mãos. Guardo-os com muito carinho junto com as jóias da minha mãe, e quando os uso lembro-me sempre da tia Alma. Também não tenho filhas e um dia os brincos serão entregues a uma nora. Os homens não ligam a estas coisas; não querem saber a história de jóias antigas, de panos bordados pelas avós, de bules de chá vindos da Bessarabia. Tal como Adeline eu também sei que são as mulheres quem preserva as memórias.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Adeline corria na neve em volta dos barracões e depois parava para ouvir o coração bater com força e aspirar o ar que penetrava nas narinas, tão gelado que conseguia sentir o frio chegar aos alvéolos. Estava viva, não era como as outras mulheres e crianças do barracão, de rostos baços de onde tinha sido sugada toda a beleza, e lábios que falavam de atrocidades que os soldados alemães tinham cometido, de odores fétidos que se escapuliam de chaminés e muitas cinzas. O pai dela nunca faria uma coisa dessas. Não lhe dissera ele que não queria matar ninguém? Que só disparava se atirassem primeiro sobre ele? Ele que nem uma galinha tinha coragem de matar; senhor de umas mãos enormes de ternura onde ela tantas vezes descansara o rosto, que esculpiam estatuetas em madeira enquanto sonhavam com cavalos selvagens e prados verdes a perder de vista.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A Prazeres, atarefada a despejar feijoada nos pratos dos clientes habituais, ouvia dizer na televisão que o Sócrates foi apanhado a fumar no avião. Ela que não fuma mas deixa toda a gente fumar no café dela, acha muito bem que ele fume onde é proibido se lhe apetecer. Tal como Sócrates ela também acha que a lei não é para ser cumprida mas sim para treinar a arte de não se ser apanhado com as calças na mão. Azar o dele que foi apanhado mas a Prazeres não entende o motivo de tanto burburinho. Não terá o Sócrates dinheiro para pagar a multa?

quarta-feira, 7 de maio de 2008

limões de s.joão

Há qualquer coisa estranha nesta terra. Tudo o que se planta não morre mas tarda em crescer, florescer, em dar frutos. Os limoeiros e as laranjeiras foram os mais tardios. Anos a fio, via os dos vizinhos carregados de limões e laranjas, enquanto os daqui se espreguiçavam no sol sem dar uma flor. A mulher do Sr. José, guardiã de saberes antigos, cortou uma vara do castanheiro numa noite de S. João e de madrugada vergastou com ela os troncos raquíticos das laranjeiras e dos limoeiros. No ano seguinte floresceram e perfumaram o jardim. Até hoje não deixaram de dar limões e laranjas embora, de ano para ano, alternem a abundância com a escassez. Segundo ela explicou, estava preocupada em recuperar as coisas que os rapazes lhe tinham roubado na noite anterior e, com a pressa, vergastou apenas um dos lados de cada tronco.

terça-feira, 6 de maio de 2008

da beleza


fotografia da Debbie tirada daqui


"Não sei o que é a puta da beleza; imagino que, por um fio, possa matar tanto como um cancro, a puta da beleza. Não sei rezar a Nossa Senhora de Fátima, a menos que ela se atrase um dia, irrompa ao mundo inteiro no dia 14, cadavérica, sem cabelo, sem mamas, sem útero, sem ovários, cheia, repleta de cancro, e que o mundo inteiro, de tanto a achar bela e vitoriosa, morra aos seus pés." - por Miss Allen do regabofe (excerto)

Adeline fez uma mastectomia no ano passado e disse-me que não voltaria a Portugal. Não queria a mutilação que lhe salvaria a vida; queria ser enterrada com as mamas todas. As mamas não são nada, só estorvam, disseram-lhe os filhos, as noras, os netos, toda a gente. E ela dizia que as mamas eram tudo.
A minha mãe com o meu bébé ao colo encostava a cara dele ao peito e dizia que tinha saudades. Acho que era esse tudo que Adeline não queria perder. As saudades bébé, a pele, a curva que prolonga o rosto.
Ninguém admira a beleza mutilada. Não acordam assim as mulheres, nem admiram assim os homens. Não se fazem poemas.
Foram-se as mamas, foi-se o cabelo mas o pior de tudo foi o Karl que também se foi. Preocupado em ajudá-la a derrotar a besta não reparou que apodrecia por dentro. A mutilação de Adeline foi ter ficado amputada do Karl.

sábado, 3 de maio de 2008

a quinta

Quase não se pode chamar jardim ao rectângulo verde nas traseiras da casa. Cresce como lhe apetece, quase sem intervenção humana. As flores, na sua maioria silvestres, vieram para criar raízes por acaso e a relva não é relva mas verdes cujas sementes o vento traz. Os limoeiros e as laranjeiras foram plantados, assim como a tília, a árvore cujo nome ninguém sabe, os choupos, o plátano e os pinheiros, depois de terem servido de árvore de Natal quando ainda estavam em vaso. As restantes árvores nasceram das outras ou então já lá estão há muitos anos, como o velho castanheiro que os antigos da aldeia não se lembram de ver crescer. Já era assim nas suas infâncias. O pequeno declive junto ao muro que suporta a eira, onde Karl gastou muitas horas e suor, moldando e fertilizando a terra, fazendo canteiros para dar um ar civilizado ao jardim, voltou ao seu estado natural, e das flores que Adeline lá semeou e plantou já só resta a roseira que teima em florir todos os anos. Junto à eira ergue-se o alpendre onde Isabel guarda as batatas, as cebolas e o feno e onde a gata preta, que não é de ninguém, esconde as suas ninhadas. Para lá do alpendre ficam os campos que se estendem até à estrada. O campo do meio fora em tempos reservado para as oliveiras, que sobrevivem ainda entre as outras árvores, e o campo de baixo foi transformado em pomar. Os dois campos restantes são cultivados pela Isabel e pelo Sr. José, embora este por vezes não cultive a o campo que lhe foi emprestado e o use para pasto das vacas e das ovelhas. Os muros que circundavam a quinta há muito que ruíram e as pedras que restam estão cobertas por silvas. É lá que as crianças colhem as amoras no Verão.

A casa é de traço típico minhoto, toda em granito, onde não falta a escadaria em pedra, que conduz ao pequeno alpendre sustentado por colunas, e as arcadas que escondem a antiga adega. A construção remonta ao século XVIII, conforme se lê na inscrição gravada por cima do portão principal e que eternizou assim o nome do primeiro dono, um tal de Meireles. Tem ainda anexadas várias dependências de um só piso, também em granito, onde em tempos se guardavam as ferramentas agrícolas e os animais domésticos, e onde se fazia o vinho. O velho lagar ainda lá está, fechado entre muros, abandonado às teias de aranha e à vegetação que vai conseguindo infiltrar-se e crescer no chão de terra. O telhado já ruiu em pedaços e faltam pedras nos muros. Estas dependências aguardam ainda restauro. O conjunto formado pela casa original, o prolongamento que lhe foi adicionado e os anexos, fecha-se num rectângulo formando um pátio no centro que no Verão fica coberto pelos ramos da videira, enchendo de frescura os fundos da casa.

O Sr. José, que é um dos mais antigos habitantes da aldeia, lembra-se de ouvir dizer na sua infância que esta fora a única casa numa extensa área que se prolongava até ao monte da Marinha. Todas as terras até ao monte, e ainda uma parte dele, pertenciam a esta quinta. Os sucessivos herdeiros e proprietários foram vendendo as terras e hoje toda essa área se encontra dividida pelas casas que foram sendo construídas; as mais antigas, ainda em granito, pelos trabalhadores rurais e as mais recentes na sua maioria por imigrantes, de forma mais ou menos clandestina. Desde que o último Plano Director Municipal deixou de classificar esta área como zona agrícola, foram também feitos loteamentos. Gente da cidade mudou-se para aqui, para viver uma vida campestre, nos intervalos da urbanidade, mas sem sujar as mãos na terra. A população local beneficiou. Os empreiteiros conseguiram, no espaço de poucos meses, o que a Junta de Freguesia não conseguira em anos: a colocação de asfalto na estrada de terra batida que liga a aldeia à vila. A água canalizada e o saneamento vieram de seguida e o café da Prazeres prosperou, sem deixar, no entanto, de ter o aspecto pouco limpo e gorduroso que o caracteriza. O braço da ASAE não chega aqui pelo que ainda se fuma dentro do café e as moscas ainda pousam nos pastéis desprotegidos. Não passa pela cabeça de ninguém protestar ou denunciar. Regra geral fazem-se sempre orelhas moucas às ordens vindas de Lisboa.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

maias e novenas

Para a minha família, o mês de Maio passou a ser sinónimo de tragédia depois do incêndio que destruiu o sótão, com toda a papelada e objectos antigos que continha, e da explosão, poucos anos depois, que levou a mão esquerda do meu irmão. Convenceram-se os meus pais, pouco dados a acreditarem em coincidências, que era castigo. De quê e de quem não se sabia e pouco interessava. O sobrenatural manifesta-se, há formas de o contrariar e é melhor deixado sem explicações. Assim, sem certeza da origem do castigo, de 30 de Abril para o dia 1 de Maio a minha mãe colocava ramos de sabugueiro nas janelas e nas portas da casa, perante o espanto dos vizinhos que não viam as maias desde a infância, para impedir a entrada ao esconjurado, ao burro, às forças do mal, enfim ao que fosse que amaldiçoava a casa nesse mês.
A minha avó sabia todas essas coisas; da perigosíssima lua de Maio que segundo ela explicava os nervos do meu irmão mais novo, do diabo que mijava a louça toda, dos maus olhados, da preguiça, da fome, de todos os males que se introduziam nas casas, junto com a Primavera, se não estivessem protegidas. Para além das maias, a minha mãe, mesmo tendo pouca paciência para padres e beatas, todas as noites de Maio ia à igreja rezar a novena e enquanto desfiava as pedras do rosário contava os dias, uns atrás dos outros. Evitavam-se as viagens e observavam-se mais de perto as crianças; mil e um cuidados até o mês acabar. Quando acabava, toda a casa sossegava. Fossem as maias, fossem as novenas, alguma coisa tinha funcionado.

abandonados

Vi a reportagem dos pescadores portugueses abandonados na Corunha. O homem explicava que tinha sido tudo verbal, não assinaram nenhum papel, contracto ou coisa que lhes valha perante a lei. Foram só palavras verbais. A jornalista perguntava porque tinham confiado e ele, olhando-a com aquela condescendência que se oferece a quem nada sabe de sobrevivência, de peixes e de mar, disse que quem precisa tem de se agarrar a tudo.
Houve um tempo em que as palavras verbais valiam mais do que um papel. Era o tempo em que muito poucos sabiam ler e escrever. Não havia honra num papel que ninguém entendia, que precisava de um advogado como intérprete, e que não substituía a segurança antiga das palavras faladas. Hoje já só vale a palavra escrita e eu estou convencida que a nossa perda de memória das coisas verdadeiramente importantes é disso consequência.


fotogafia de Roland N.