
nascimento de outra lua pelo meu dez anos
Nos dias úteis cerca-me o cimento, azulejos do lado norte e a sul o velho prédio caiado a branco, que o burgo em tempos construiu para alojar os portugueses de África. Ainda lá vive a D. Ana, rodeada de recordações de Moçambique, e às vezes a filha, quando o marido a põe fora de casa a pontapé. Os filhos há muito que morreram, de overdose. Mais abaixo, no prédio azul, mora ainda a tua mãe. Vejo-a caminhar pensativa, circunspecta nos próprios passos, quando regressa a casa depois de levar a tua sobrinha à escola primária. Vejo o teu irmão à porta da escola quase todos os dias quando lá vou buscar o meu dez anos.
Nos dias inúteis cerca-me o verde, o granito e as pessoas do campo de quem tanto gosto. Não sabes como eu gosto dos dias inúteis, das gentes e das coisas inúteis.
Isto poderia ser o início de uma carta. Haverias de ler a minha carta, manuscrita como já se não usa. Reconhecerias a caligrafia a querer ser torta, sem força para fugir à disciplina rectilínea que as mãos aprenderam em inúmeras lições de escrita em cadernos de duas linhas. Se quisesse escrever-te saberia encontrar o teu paradeiro – moro muito perto da casa da tua mãe, nos dias úteis – mas não te quero escrever.
Há muito que tinham matado o Duce mas aqui ainda sobrevivia o fascismo. Acho que era isso embora haja quem diga que era só autoritarismo, não interessa, não havia liberdade, excepto para mim, menina. Tinha toda a liberdade que queria.
Saía de casa de manhã cedo para subir a rua de Santa Maria até à escola primária de Santa Clara, só para meninas; de Inverno com a saia em pregas de fazenda grossa, meias brancas de lã, apanhava muito frio nos joelhos, e a bata branca por baixo do casaco, também ele de fazenda grossa, com bolsos fundos onde enfiava as castanhas que comprava na mulher que as vendia na esquina da praça. Aqueciam-me as mãos até à escola. Na Primavera, a fazenda grossa dava lugar aos tecidos leves que revelavam a minha ossatura. Já não comprava castanhas pelo simples motivo de não encontrar a mulher na esquina da praça, mas mais adiante havia outra que vendia fruta e me dizia que qualquer dia ia tocar piano nas minhas costelas.
Vinha almoçar a casa ao meio-dia – era só saltitar pela rua abaixo – e parava junto às portadas azuis do casarão onde vivia muita gente. A porta estava sempre aberta e lá dentro, ao fundo do enorme hall granítico, havia uma outra porta muito bonita com um arco de volta quebrada e vidros coloridos. Girando a maçaneta podia-se entrar e subir as escadas, mas tinha muito medo porque havia lá um cão. Um cão grande, que não se mexia; ficava ali estático a olhar para mim e a mostrar-me os dentes. Tinham-me dito que era um cão embalsamado, ou seja, um cão que não estava vivo nem morto. Diziam-me para não rodar a maçaneta porque o cão poderia comer-me – não era eu pele e osso e não sabia toda a gente que os cães gostavam de ossos? Eu só não entendia o motivo do cão nunca ter comido o rapaz que morava lá em cima que era um pau de virar tripas e todos os dias passava junto do morto-vivo.
Quando chegou a idade em que as meninas começam a olhar para o seu corpo, já o fascismo tinha acabado, eu olhava para o meu com tristeza. Visitavam-nos os parentes e nunca me diziam «estás mais bonita» ou «estás uma mulherzinha», como diziam à minha irmã. A mim diziam sempre «estás cada vez mais magra» ou «qualquer dia desapareces». Não me deixavam esquecer que não tinha mamas, que as ancas eram duas espadas que se espetavam para fora do corpo que a minha mãe tentava disfarçar costurando saias de roda para mim. O cão embalsamado só roía ossos de meninas.
É noite e tenho o jantar atrasado; o strüdel de legumes no forno com cara de quem não vai sair-se muito bem e o meu dez anos que aproveita o resto da massa para fazer figurinhas que recorta com os moldes de alumínio em forma de borboleta, passarinho, coração, estrelinha. Vou fazer bolachas, mãe. Provo o molho do frango estufado e batem-me no vidro da porta da cozinha. É o Sr. José que me veio trazer uma galinha.
- A minha patroa matou-a hoje, está fresquinha.
Espreito para dentro do saco e vejo a ave enorme com a cabeça agarrada ao pescoço.
- Se tiver qualquer pena ainda, desculpe, a mulher já não vê muito bem e eu não tenho coragem de matar. Disse que deitou muito sangue, é bom sinal. Pode comer à vontade que é limpinho, é pica-no-chão.
Aponta para o ar e diz que não pára de chover.
- Meu Deus, hoje choveu como um caraças, vão-se-me apodrecer as batatas. E o vinho? Nem quero pensar. Está-se a estragar todo e hoje que até saraiva caiu. Isto da agricultura está cada vez pior. Vim agora que a mulher até me ralhou; vai antes que eles vão para a cama e eu vim.
Agradeço-lhe a gentileza e ele fala-me das vacas. Estão todas prenhes e têm fome de andar nos campos a pastar. Impacientam-se e atiram com a cabeça contra as paredes.
- Quando as vejo assim já sei que querem vir cá para fora, mas hoje não as trouxe à conta da chuva que era muita.
À conta da chuva que era muita. O meu dez anos quer ver a galinha e fica admirado quando vê a cabeça. Os frangos do supermercado não têm cabeça e esta galinha tem uma de olhos fechados, e ele de olhos muito abertos:
- Mãe, para onde vão as cabeças dos frangos quando eles morrem?



Ninguém sabe ao certo quantos anos têm estes brincos. A tia Alma sofre de Alzheimer e quando o homem morreu recusou o internamento. Adeline defendeu a decisão dela de ficar em casa, embora sozinha, enquanto a doença não progredisse e se limitasse a causar-lhe pequenas falhas de memória, mas quando Alma juntou a roupa suja e a meteu no forno, pensando tratar-se da máquina de lavar, provocando o pequeno incêndio que alarmou a vizinhança, Adeline cedeu e tratou do internamento. Não tardou muito até a tia Alma se esquecer de tudo e de todos e a sua casa foi vendida para pagar as despesas da instituição privada onde ainda está, pouco lhe faltando para chegar aos cem anos. O recheio da casa foi distribuído pelos parentes próximos e, como não tem filhos nem filhas, as suas jóias foram entregues a Adeline que é o que de mais parecido com uma filha a tia Alma tem. Não existem laços de sangue entre elas. Alma é a viúva do tio Reinhold, meio-irmão da mãe de Adeline e foi ele quem as ajudou a sair de Rostock, na antiga Alemanha de Leste, para a Suábia no fim da guerra.
Adeline nunca gostou de usar jóias, à excepção do anel de noivado e da aliança de casamento. Ela tem filhos mas não tem filhas, por isso, distribuiu as jóias pelas noras. Foi assim que os brincos antigos da tia Alma vieram parar às minhas mãos. Guardo-os com muito carinho junto com as jóias da minha mãe, e quando os uso lembro-me sempre da tia Alma. Também não tenho filhas e um dia os brincos serão entregues a uma nora. Os homens não ligam a estas coisas; não querem saber a história de jóias antigas, de panos bordados pelas avós, de bules de chá vindos da Bessarabia. Tal como Adeline eu também sei que são as mulheres quem preserva as memórias.
Adeline corria na neve em volta dos barracões e depois parava para ouvir o coração bater com força e aspirar o ar que penetrava nas narinas, tão gelado que conseguia sentir o frio chegar aos alvéolos. Estava viva, não era como as outras mulheres e crianças do barracão, de rostos baços de onde tinha sido sugada toda a beleza, e lábios que falavam de atrocidades que os soldados alemães tinham cometido, de odores fétidos que se escapuliam de chaminés e muitas cinzas. O pai dela nunca faria uma coisa dessas. Não lhe dissera ele que não queria matar ninguém? Que só disparava se atirassem primeiro sobre ele? Ele que nem uma galinha tinha coragem de matar; senhor de umas mãos enormes de ternura onde ela tantas vezes descansara o rosto, que esculpiam estatuetas em madeira enquanto sonhavam com cavalos selvagens e prados verdes a perder de vista.
A Prazeres, atarefada a despejar feijoada nos pratos dos clientes habituais, ouvia dizer na televisão que o Sócrates foi apanhado a fumar no avião. Ela que não fuma mas deixa toda a gente fumar no café dela, acha muito bem que ele fume onde é proibido se lhe apetecer. Tal como Sócrates ela também acha que a lei não é para ser cumprida mas sim para treinar a arte de não se ser apanhado com as calças na mão. Azar o dele que foi apanhado mas a Prazeres não entende o motivo de tanto burburinho. Não terá o Sócrates dinheiro para pagar a multa?
Há qualquer coisa estranha nesta terra. Tudo o que se planta não morre mas tarda em crescer, florescer, em dar frutos. Os limoeiros e as laranjeiras foram os mais tardios. Anos a fio, via os dos vizinhos carregados de limões e laranjas, enquanto os daqui se espreguiçavam no sol sem dar uma flor. A mulher do Sr. José, guardiã de saberes antigos, cortou uma vara do castanheiro numa noite de S. João e de madrugada vergastou com ela os troncos raquíticos das laranjeiras e dos limoeiros. No ano seguinte floresceram e perfumaram o jardim. Até hoje não deixaram de dar limões e laranjas embora, de ano para ano, alternem a abundância com a escassez. Segundo ela explicou, estava preocupada em recuperar as coisas que os rapazes lhe tinham roubado na noite anterior e, com a pressa, vergastou apenas um dos lados de cada tronco.

"Não sei o que é a puta da beleza; imagino que, por um fio, possa matar tanto como um cancro, a puta da beleza. Não sei rezar a Nossa Senhora de Fátima, a menos que ela se atrase um dia, irrompa ao mundo inteiro no dia 14, cadavérica, sem cabelo, sem mamas, sem útero, sem ovários, cheia, repleta de cancro, e que o mundo inteiro, de tanto a achar bela e vitoriosa, morra aos seus pés." - por Miss Allen do regabofe (excerto)
Adeline fez uma mastectomia no ano passado e disse-me que não voltaria a Portugal. Não queria a mutilação que lhe salvaria a vida; queria ser enterrada com as mamas todas. As mamas não são nada, só estorvam, disseram-lhe os filhos, as noras, os netos, toda a gente. E ela dizia que as mamas eram tudo.
A minha mãe com o meu bébé ao colo encostava a cara dele ao peito e dizia que tinha saudades. Acho que era esse tudo que Adeline não queria perder. As saudades bébé, a pele, a curva que prolonga o rosto.
Ninguém admira a beleza mutilada. Não acordam assim as mulheres, nem admiram assim os homens. Não se fazem poemas.
Foram-se as mamas, foi-se o cabelo mas o pior de tudo foi o Karl que também se foi. Preocupado em ajudá-la a derrotar a besta não reparou que apodrecia por dentro. A mutilação de Adeline foi ter ficado amputada do Karl.
Quase não se pode chamar jardim ao rectângulo verde nas traseiras da casa. Cresce como lhe apetece, quase sem intervenção humana. As flores, na sua maioria silvestres, vieram para criar raízes por acaso e a relva não é relva mas verdes cujas sementes o vento traz. Os limoeiros e as laranjeiras foram plantados, assim como a tília, a árvore cujo nome ninguém sabe, os choupos, o plátano e os pinheiros, depois de terem servido de árvore de Natal quando ainda estavam em vaso. As restantes árvores nasceram das outras ou então já lá estão há muitos anos, como o velho castanheiro que os antigos da aldeia não se lembram de ver crescer. Já era assim nas suas infâncias. O pequeno declive junto ao muro que suporta a eira, onde Karl gastou muitas horas e suor, moldando e fertilizando a terra, fazendo canteiros para dar um ar civilizado ao jardim, voltou ao seu estado natural, e das flores que Adeline lá semeou e plantou já só resta a roseira que teima em florir todos os anos. Junto à eira ergue-se o alpendre onde Isabel guarda as batatas, as cebolas e o feno e onde a gata preta, que não é de ninguém, esconde as suas ninhadas. Para lá do alpendre ficam os campos que se estendem até à estrada. O campo do meio fora em tempos reservado para as oliveiras, que sobrevivem ainda entre as outras árvores, e o campo de baixo foi transformado em pomar. Os dois campos restantes são cultivados pela Isabel e pelo Sr. José, embora este por vezes não cultive a o campo que lhe foi emprestado e o use para pasto das vacas e das ovelhas. Os muros que circundavam a quinta há muito que ruíram e as pedras que restam estão cobertas por silvas. É lá que as crianças colhem as amoras no Verão.
A casa é de traço típico minhoto, toda em granito, onde não falta a escadaria em pedra, que conduz ao pequeno alpendre sustentado por colunas, e as arcadas que escondem a antiga adega. A construção remonta ao século XVIII, conforme se lê na inscrição gravada por cima do portão principal e que eternizou assim o nome do primeiro dono, um tal de Meireles. Tem ainda anexadas várias dependências de um só piso, também em granito, onde em tempos se guardavam as ferramentas agrícolas e os animais domésticos, e onde se fazia o vinho. O velho lagar ainda lá está, fechado entre muros, abandonado às teias de aranha e à vegetação que vai conseguindo infiltrar-se e crescer no chão de terra. O telhado já ruiu em pedaços e faltam pedras nos muros. Estas dependências aguardam ainda restauro. O conjunto formado pela casa original, o prolongamento que lhe foi adicionado e os anexos, fecha-se num rectângulo formando um pátio no centro que no Verão fica coberto pelos ramos da videira, enchendo de frescura os fundos da casa.
O Sr. José, que é um dos mais antigos habitantes da aldeia, lembra-se de ouvir dizer na sua infância que esta fora a única casa numa extensa área que se prolongava até ao monte da Marinha. Todas as terras até ao monte, e ainda uma parte dele, pertenciam a esta quinta. Os sucessivos herdeiros e proprietários foram vendendo as terras e hoje toda essa área se encontra dividida pelas casas que foram sendo construídas; as mais antigas, ainda em granito, pelos trabalhadores rurais e as mais recentes na sua maioria por imigrantes, de forma mais ou menos clandestina. Desde que o último Plano Director Municipal deixou de classificar esta área como zona agrícola, foram também feitos loteamentos. Gente da cidade mudou-se para aqui, para viver uma vida campestre, nos intervalos da urbanidade, mas sem sujar as mãos na terra. A população local beneficiou. Os empreiteiros conseguiram, no espaço de poucos meses, o que a Junta de Freguesia não conseguira em anos: a colocação de asfalto na estrada de terra batida que liga a aldeia à vila. A água canalizada e o saneamento vieram de seguida e o café da Prazeres prosperou, sem deixar, no entanto, de ter o aspecto pouco limpo e gorduroso que o caracteriza. O braço da ASAE não chega aqui pelo que ainda se fuma dentro do café e as moscas ainda pousam nos pastéis desprotegidos. Não passa pela cabeça de ninguém protestar ou denunciar. Regra geral fazem-se sempre orelhas moucas às ordens vindas de Lisboa.
