quarta-feira, 30 de abril de 2008

nada

Por trás das janelas entre azulejos azuis, na sala de jantar, havia um gato, ou então era uma gata, espreguiçado perto do aquecedor a óleo. As paredes empapeladas guardavam quadros, pratos pintados à mão, móveis antiquíssimos, bibelôs raros e a música de Wagner. Sentado numa ponta da mesa, que tinha sido posta só para ele, falava de coisas às quais eu fingia prestar atenção.
Momentos antes, quando Amélia abriu a porta, "Ah, é a menina. O menino está a jantar", respondi que não tinha importância, que falaria com ele noutra altura, ele gritara do cimo das escadas "Deixa-a entrar, eu já estou a acabar". Entrei, disfarçando o riso. Achava estranho que fosse ainda chamado de menino.
Não tinha nada para lhe dizer, queria apenas vê-lo. Levou-me para a sala de jantar e sentou-me numa cadeira, longe da mesa. Quis partilhar a sua sobremesa comigo mas recusei. Enquanto afagava o gato ia observando a sua calma, o seu arrastar dos talheres, sem deixar de sentir pressa e de o sentir apressado. Tentava ocultar o desconforto que sentia quando eu o olhava. Os fotógrafos não gostam de ser fotografados e ele sabia que eu haveria de transpor para o papel tudo o que fotografava na minha memória. Ele usava as películas para prender as memórias, eu usava o lápis.
Mostrou-me as suas últimas fotografias. Orgulhava-se delas e eram elas que o faziam sentir-se vivo. As suas pequenas vitórias provinham daí; das vidas, dos rostos bonitos de mulheres, das paisagens, nuvens e neblinas que captava.
Mais tarde, quando saímos para a rua, caminhou comigo até à minha casa. Falou-me de cansaço, do desperdício de horas passadas em batalhas que nunca venceria, do seu regresso repentino do Algarve - não suportava o calor, o sul, a saudade das montanhas - e falou-me das mulheres dele, incluindo aquela com quem haveria de seguir viagem e com quem teria o filho que em tempos jurara nunca ter. Apercebi-me de repente do quão mais velho do que eu ele era. Estava prestes a fechar os anos que eu começava a abrir.
Foi quando nos despedimos, quando beijamos as faces um do outro, que a nossa proximidade se desfez. Não precisava de mim. É a súbita consciência dessa certeza que nos faz deixar de amar alguém, assim sem se anunciar; num milésimo de segundo tudo o que outrora fora tudo se transforma em nada.

1 comentário:

Anónimo disse...

necessario verificar:)