segunda-feira, 23 de junho de 2008

arejar palavras

Não rebusco as palavras. Um jornal deve usar uma linguagem cuidada mas simples, acessível ao maior número possível de pessoas. Um jornal não pretende ser uma obra de arte mas um texto pode ser simples e ser uma obra de arte. Por vezes encontro textos que parecem querer dizer alguma coisa mas só o dizem, a mim, depois de ter consultado o dicionário. O meu dicionário de bolso é muito incompleto e o outro, o tal que tem tudo, está dividido em calhamaços grossos e pesados. Não posso transportá-lo comigo. Adicionem-se as citações em latim sem a respectiva tradução e aquilo que parecia querer dizer alguma coisa deixa de o fazer. O texto torna-se supérfluo, para mim e para aqueles que como eu não coleccionaram palavras portuguesas. Quando me interessa muito desvendar um texto desses, aponto as palavras que não conheço na minha sebenta, para depois procurar o significado, e já me aconteceu, feita a tradução, chegar à conclusão que afinal o texto nada dizia. Era só uma exibição de palavras. Talvez o autor fosse pretensioso ou talvez achasse que as palavras confinadas às catacumbas dos calhamaços também tivessem o direito de lá sair, para serem arejadas, mesmo não fazendo sentido de mãos dadas umas com as outras. Há pessoas que passam a vida a arejar palavras.

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