quarta-feira, 28 de maio de 2008

donna-crisi

A mulher fascista deve ser físicamente sã, para poder tornar-se mãe de filhos sãos, segundo as «regras de vida» indicadas pelo Duce, no memorável discurso aos médicos. Por isso devem ser absolutamente eliminados os desenhos de figuras femininas artificialmente magras e masculinizadas que representam o tipo de mulher estéril da decadente civilização ocidental.
Gabinete de Imprensa da Presidência do Conselho Italiano
Desenhos e fotografias de modas femininas, 1931

Há muito que tinham matado o Duce mas aqui ainda sobrevivia o fascismo. Acho que era isso embora haja quem diga que era só autoritarismo, não interessa, não havia liberdade, excepto para mim, menina. Tinha toda a liberdade que queria.
Saía de casa de manhã cedo para subir a rua de Santa Maria até à escola primária de Santa Clara, só para meninas; de Inverno com a saia em pregas de fazenda grossa, meias brancas de lã, apanhava muito frio nos joelhos, e a bata branca por baixo do casaco, também ele de fazenda grossa, com bolsos fundos onde enfiava as castanhas que comprava na mulher que as vendia na esquina da praça. Aqueciam-me as mãos até à escola. Na Primavera, a fazenda grossa dava lugar aos tecidos leves que revelavam a minha ossatura. Já não comprava castanhas pelo simples motivo de não encontrar a mulher na esquina da praça, mas mais adiante havia outra que vendia fruta e me dizia que qualquer dia ia tocar piano nas minhas costelas.
Vinha almoçar a casa ao meio-dia – era só saltitar pela rua abaixo – e parava junto às portadas azuis do casarão onde vivia muita gente. A porta estava sempre aberta e lá dentro, ao fundo do enorme hall granítico, havia uma outra porta muito bonita com um arco de volta quebrada e vidros coloridos. Girando a maçaneta podia-se entrar e subir as escadas, mas tinha muito medo porque havia lá um cão. Um cão grande, que não se mexia; ficava ali estático a olhar para mim e a mostrar-me os dentes. Tinham-me dito que era um cão embalsamado, ou seja, um cão que não estava vivo nem morto. Diziam-me para não rodar a maçaneta porque o cão poderia comer-me – não era eu pele e osso e não sabia toda a gente que os cães gostavam de ossos? Eu só não entendia o motivo do cão nunca ter comido o rapaz que morava lá em cima que era um pau de virar tripas e todos os dias passava junto do morto-vivo.
Quando chegou a idade em que as meninas começam a olhar para o seu corpo, já o fascismo tinha acabado, eu olhava para o meu com tristeza. Visitavam-nos os parentes e nunca me diziam «estás mais bonita» ou «estás uma mulherzinha», como diziam à minha irmã. A mim diziam sempre «estás cada vez mais magra» ou «qualquer dia desapareces». Não me deixavam esquecer que não tinha mamas, que as ancas eram duas espadas que se espetavam para fora do corpo que a minha mãe tentava disfarçar costurando saias de roda para mim. O cão embalsamado só roía ossos de meninas.

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