sábado, 19 de abril de 2008

arco-íris sobre o meu telhado



"Em certos estados de alma quase sobrenaturais, a profundidade da vida revela-se toda inteira no espectáculo, por mais vulgar que seja, que temos debaixo dos olhos. Torna-se o seu símbolo." - Charles Baudelaire - O meu coração posto a nu, 1861


hoje, por uns breves segundos o sol poente trespassou as nuvens
e sugando a chuva projectou este arco-íris sobre o meu telhado.
por uns breves segundos a luz entardecida penetrou no quarto do meu dez anos.
olhou pela janela os verdes molhados, cristalinos, contrastantes e estranhos;
o rectângulo aberto na parede e o pêlo amarelo dos cães era agora dourado.
por uns breves segundos a casa parou
abandonamos o computador, os playmobil e o fogão
calou-se a televisão.
saídos para o jardim, os gatos espiavam os pardais
de quem a luz revelava camuflagem.
asustados voaram para outra paragem.
os olhos dos gatos pousaram nos meus
também eles eram verdes quando me seguiam os pés.
por uns breves segundos era eu eras tu
a luz, as sombras, os verdes azuis e os cinzas
tela que sozinha se pintou
assim sem querer te tocou.

que pena as fotografias não registarem os cheiros
da chuva no sol, do jasmim e dos pinheiros.

por uns breves segundos Isabel olhou
através da janela para poente.
pensei que ela entendera
mas já ela a mão estendera;
frenética esfregava os vidros
lavando as manchas que a luz revelara.

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