sábado, 19 de abril de 2008

encantamentos

Há muito tempo, gabava-me de possuir todas as paisagens possíveis e considerava ridículas todas as celebridades da pintura e da poesia moderna. Gostava das pinturas idiotas, das bandeiras das portas, dos cenários, dos toldos, dos saltimbancos, dos estandartes, das estampas populares; da literatura fora de moda, do latim eclesiástico, dos livros eróticos sem ortografia, dos romances das nossas avós, dos contos de fadas, dos livrinhos para a infância, dos velhos melodramas, dos refrães estúpidos e dos ritmos ingénuos.
Sonhava com cruzadas, com viagens de descobrimentos de que não há memória, com repúblicas sem história, com guerras de religião sufocadas, com revoluções de costumes, com migrações de raças e de continentes; acreditava em todos os encantamentos.
- Arthur Rimbaud - Uma temporada no inferno, 1873

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