Por trás das janelas entre azulejos azuis, na sala de jantar, havia um gato, ou então era uma gata, espreguiçado perto do aquecedor a óleo. As paredes empapeladas guardavam quadros, pratos pintados à mão, móveis antiquíssimos, bibelôs raros e a música de Wagner. Sentado numa ponta da mesa, que tinha sido posta só para ele, falava de coisas às quais eu fingia prestar atenção.
Momentos antes, quando Amélia abriu a porta, "Ah, é a menina. O menino está a jantar", respondi que não tinha importância, que falaria com ele noutra altura, ele gritara do cimo das escadas "Deixa-a entrar, eu já estou a acabar". Entrei, disfarçando o riso. Achava estranho que fosse ainda chamado de menino.
Não tinha nada para lhe dizer, queria apenas vê-lo. Levou-me para a sala de jantar e sentou-me numa cadeira, longe da mesa. Quis partilhar a sua sobremesa comigo mas recusei. Enquanto afagava o gato ia observando a sua calma, o seu arrastar dos talheres, sem deixar de sentir pressa e de o sentir apressado. Tentava ocultar o desconforto que sentia quando eu o olhava. Os fotógrafos não gostam de ser fotografados e ele sabia que eu haveria de transpor para o papel tudo o que fotografava na minha memória. Ele usava as películas para prender as memórias, eu usava o lápis.
Mostrou-me as suas últimas fotografias. Orgulhava-se delas e eram elas que o faziam sentir-se vivo. As suas pequenas vitórias provinham daí; das vidas, dos rostos bonitos de mulheres, das paisagens, nuvens e neblinas que captava.
Mais tarde, quando saímos para a rua, caminhou comigo até à minha casa. Falou-me de cansaço, do desperdício de horas passadas em batalhas que nunca venceria, do seu regresso repentino do Algarve - não suportava o calor, o sul, a saudade das montanhas - e falou-me das mulheres dele, incluindo aquela com quem haveria de seguir viagem e com quem teria o filho que em tempos jurara nunca ter. Apercebi-me de repente do quão mais velho do que eu ele era. Estava prestes a fechar os anos que eu começava a abrir.
Foi quando nos despedimos, quando beijamos as faces um do outro, que a nossa proximidade se desfez. Não precisava de mim. É a súbita consciência dessa certeza que nos faz deixar de amar alguém, assim sem se anunciar; num milésimo de segundo tudo o que outrora fora tudo se transforma em nada.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
nada
segunda-feira, 28 de abril de 2008
conto americano
---Quando o formoso sol do estio do anno 1001 começou a destoucar de seus gelos de tantos mezes os erguidos cerros da Islandia, reuniu-se em sessão magna o governo d'aquella republica aristocratica para tratar de um assunto de grande transcendencia.
---Os filhos dos ousados navegadores da Norwega, que haviam descoberto e povoado a ilha do Gêlo, já, seguindo o exemplo de seus paes, tinham continuado a sulcar os mares do norte, e descoberto a Groenlandia, ou Terra Verde; porém, infatigaveis e audaciosos, queriam ir agora mais longe em busca de novas terras, menos aridas do que a sua, onde podessem fundar colonias.
---Era a approvação e auxilio dos magnatas da governança, que os pilotos Leif e Bium tambem reclamavam n'este momento, e que fazia reunir os illustres proceres da Islandia na humilde choça que lhes servia de capitolio.
---Não tinha mais dignidade o doge e senado de Veneza no seu palacio de marmore, do que os nobres anciãos escandinavos na sua choupana de turfa. Ouvindo cuidadosamente a proposta dos nautas, o honrado Thorfinn Karlsefne, que presidia á assemblea, e que já navegára tambem, expoz com lucidez as vantagens que podiam resultar para a Islandia d'aquella aventurosa expedição, e votou por que todos os sacrificios se fizessem para a auxiliar.
retirado de Conto Americano de Francisco Maria Bordalo, publicado no Archivo Pittoresco, Volume I, 1857-1858. Ler mais no Polaris.
domingo, 27 de abril de 2008
encontro breve

automat – Edward Hopper
As linhas perpendiculares que caem do conjunto formado pelas verticais e pelas horizontais das janelas, fazem lembrar cruzes de vidro através do qual a cidade espreita e o café espera. A chuva chegou até aí e permanece em restos molhados no chão plastificado. O ar é calmo e branco fluorescente embora lá fora a cor predominante seja o cinza azulado que escurece, ao mesmo tempo que a luz laranja dos lampiões de rua embate nos vidros e ofusca a vista. Há toda uma história que se faz para lá desta calma, aos poucos, perceptível apenas em pedaços – pedaços de jornal, de cigarro, de café, de gestos, de olhares, de carne. Enquanto o café espera, o branco cai sobre os olhos quando as pupilas fogem para a rua. É o dia dos seus anos mas a luz do sol inventado não a ilumina. E se soprasse? A luz, como se fosse vela?
Soprou a luz.
-Ah!
Silêncio.
A mulher apenas fechou os olhos e o homem apenas levou o cigarro à boca. Pousou a mão na sua perna e disse palavras mudas antes de se erguer e desaparecer do fumo e do calor. Morreu nos gestos.
Soprou a luz.
-Ah!
Silêncio.
A mulher apenas fechou os olhos e o homem apenas levou o cigarro à boca. Pousou a mão na sua perna e disse palavras mudas antes de se erguer e desaparecer do fumo e do calor. Morreu nos gestos.
quinta-feira, 24 de abril de 2008

desenho a lápis da minha irmã
O cabelo desce em pontas e quase toca os ombros. Acaricia levemente o rosto branco, levanta-o e sossega. Os olhos castanhos profundos deixam ver o que vêem quando não querem ver mas fechados não querem estar. A sua beleza dá igual.
Naqueles momentos em que temos prazer em estarmos vivos, ao lado dos outros, desfrutando de tudo que se torna bom, apenas sentimos o fio que leva a vida aos sentidos, o ar que respiramos, as atmosferas que tão espontaneamente criamos e se criam. O valor de estarmos juntos é esse. A minha intuição que te adivinha e a tua a minha. Se nos déssemos ao trabalho de concentrar a nossa atenção sobre os minutos, certos minutos quando nos acontecem pela primeira vez, sentir-nos-íamos estranhos na consciência da variedade de sentimentos que experimentamos em tão poucos segundos. O sentir é mais veloz que o tempo. Há mais sentimentos que números.
Naqueles momentos em que temos prazer em estarmos vivos, ao lado dos outros, desfrutando de tudo que se torna bom, apenas sentimos o fio que leva a vida aos sentidos, o ar que respiramos, as atmosferas que tão espontaneamente criamos e se criam. O valor de estarmos juntos é esse. A minha intuição que te adivinha e a tua a minha. Se nos déssemos ao trabalho de concentrar a nossa atenção sobre os minutos, certos minutos quando nos acontecem pela primeira vez, sentir-nos-íamos estranhos na consciência da variedade de sentimentos que experimentamos em tão poucos segundos. O sentir é mais veloz que o tempo. Há mais sentimentos que números.
sábado, 19 de abril de 2008
arco-íris sobre o meu telhado

"Em certos estados de alma quase sobrenaturais, a profundidade da vida revela-se toda inteira no espectáculo, por mais vulgar que seja, que temos debaixo dos olhos. Torna-se o seu símbolo." - Charles Baudelaire - O meu coração posto a nu, 1861
hoje, por uns breves segundos o sol poente trespassou as nuvens
e sugando a chuva projectou este arco-íris sobre o meu telhado.
por uns breves segundos a luz entardecida penetrou no quarto do meu dez anos.
olhou pela janela os verdes molhados, cristalinos, contrastantes e estranhos;
o rectângulo aberto na parede e o pêlo amarelo dos cães era agora dourado.
por uns breves segundos a casa parou
abandonamos o computador, os playmobil e o fogão
calou-se a televisão.
saídos para o jardim, os gatos espiavam os pardais
de quem a luz revelava camuflagem.
asustados voaram para outra paragem.
os olhos dos gatos pousaram nos meus
também eles eram verdes quando me seguiam os pés.
por uns breves segundos era eu eras tu
a luz, as sombras, os verdes azuis e os cinzas
tela que sozinha se pintou
assim sem querer te tocou.
que pena as fotografias não registarem os cheiros
da chuva no sol, do jasmim e dos pinheiros.
por uns breves segundos Isabel olhou
através da janela para poente.
pensei que ela entendera
mas já ela a mão estendera;
frenética esfregava os vidros
lavando as manchas que a luz revelara.
encantamentos
Há muito tempo, gabava-me de possuir todas as paisagens possíveis e considerava ridículas todas as celebridades da pintura e da poesia moderna. Gostava das pinturas idiotas, das bandeiras das portas, dos cenários, dos toldos, dos saltimbancos, dos estandartes, das estampas populares; da literatura fora de moda, do latim eclesiástico, dos livros eróticos sem ortografia, dos romances das nossas avós, dos contos de fadas, dos livrinhos para a infância, dos velhos melodramas, dos refrães estúpidos e dos ritmos ingénuos.
Sonhava com cruzadas, com viagens de descobrimentos de que não há memória, com repúblicas sem história, com guerras de religião sufocadas, com revoluções de costumes, com migrações de raças e de continentes; acreditava em todos os encantamentos.
- Arthur Rimbaud - Uma temporada no inferno, 1873
Sonhava com cruzadas, com viagens de descobrimentos de que não há memória, com repúblicas sem história, com guerras de religião sufocadas, com revoluções de costumes, com migrações de raças e de continentes; acreditava em todos os encantamentos.
- Arthur Rimbaud - Uma temporada no inferno, 1873
sexta-feira, 18 de abril de 2008
inocência
cai na água a passagem
da minha virgem, menina com asas
o tempo passa sem mistério sobre a juventude.
estendidas ao longo da praia
apanham sol e contam beijinhos na areia.
conversam as gaivotas, a espuma, os corpos bronzeados, os barcos!
sol, sol, é mar, é mar
maré cheia, maré vaza
meu calor, minha aventura...
tão frágeis, os seus lábios ensaiam canções sem acordes.
pescadores cosem as redes esburacadas das amarguras
perto dos barcos de tão invisíveis madrugadas.
o canto das sereias é prenúncio de tempestades.
podem elevar-se para além das dunas
e brincar aos abraços com a areia
mas a sorte pode não passar daqui
pode ninguém bastar-se a si próprio
pode até o medo ser infundado
mas afundarão na onda o passo.
estendem o corpo e abrem o peito na praia azul
sem dar de si mão ao derradeiro envelhecer.
da minha virgem, menina com asas
o tempo passa sem mistério sobre a juventude.
estendidas ao longo da praia
apanham sol e contam beijinhos na areia.
conversam as gaivotas, a espuma, os corpos bronzeados, os barcos!
sol, sol, é mar, é mar
maré cheia, maré vaza
meu calor, minha aventura...
tão frágeis, os seus lábios ensaiam canções sem acordes.
pescadores cosem as redes esburacadas das amarguras
perto dos barcos de tão invisíveis madrugadas.
o canto das sereias é prenúncio de tempestades.
podem elevar-se para além das dunas
e brincar aos abraços com a areia
mas a sorte pode não passar daqui
pode ninguém bastar-se a si próprio
pode até o medo ser infundado
mas afundarão na onda o passo.
estendem o corpo e abrem o peito na praia azul
sem dar de si mão ao derradeiro envelhecer.
terça-feira, 15 de abril de 2008
reflexo

vénus ao espelho - Velasquez 1650
deponho caras para logo ensaiar outras.
ninguém faz conjecturas
não há outros olhos, outras mãos.
fragmentos voltam ao seu núcleo
posso comandar, posso ser obedecida.
ando sempre com um espelho na mão.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
a tribo dos Zo-é
"Os Zo-é, Ruy, até as mulheres partilham, entre eles o ciúme parece não existir, vivem numa espécie de território desnascido ainda antes de havermos caído em desgraça. Não perdem tempo a olhar o erro, a sonhar com o altar, a selar envelopes para concorrerem a prémios, não perdem tempo a admirar um inimaginável sucesso nem a pensar no que possa ser ou não ser o sucesso, pois para eles sucesso não mais há-de ser do que ter o que comer, mulher e crias para dar continuidade a uma forma de vida tão distante e tão viva e, por isso mesmo, tão ameaçada." - publicado no Insónia
os Zo-é têm ferramentas primitivas
a floresta e o rio onde achar alimento
e tudo isso lhes basta.
ah já me esquecia
têm também mulheres e crias.
de que tribo serão essas mulheres?
perderão elas tempo com o erro
de sonhar casamentos com Z-és
esses senhores que as possuirão
sem lhes dar identidade
para dar continuidade
a não ser algo que se é?
mas eu sei que não é assim.
na tribo dos Zo-é
todos são o que são
e nada disto interessa.
é nesta lusa tribo de Zés
onde por vezes tenho vontade
de nunca ter posto os pés.
mais sobre os Zo-é na Revista Galileu
neblina
praia de Moledo
como um segredo escutamos trémulo o vento que passa
e o mar.
sabemos que o mar é só o mar e condenamos as palavras ao silêncio.
estudando as linhas do teu rosto não conspiro o teu sorriso ou o medo.
o meu corpo desprende o mar da areia
isento das teias frágeis que o seguram
recusando acreditar que se enlaça e que dentro do teu mar
nada mais deixa que neblina.
domingo, 13 de abril de 2008
laços pouco lassos
queria deixar-te laços pouco lassos
aventuras que faço floresta dentro
algumas pedras quebradas
outras refeitas
algo de interminável em acabado murmúrio.
deixo talvez tudo que não sei dizer
sem dizer.
abre em asas o azul derrubado dos olhos sobre o corpo.
expande os limites outrora leves
mas finge apenas que partes.
queria deixar-te laços pouco lassos
algumas aventuras minhas
mas mais não deixo que mentiras.
aventuras que faço floresta dentro
algumas pedras quebradas
outras refeitas
algo de interminável em acabado murmúrio.
deixo talvez tudo que não sei dizer
sem dizer.
abre em asas o azul derrubado dos olhos sobre o corpo.
expande os limites outrora leves
mas finge apenas que partes.
queria deixar-te laços pouco lassos
algumas aventuras minhas
mas mais não deixo que mentiras.
avisem o sentir

Fomos até ao rio. A lavadeira veio à janela ver a quem pertenciam os risos, os passos, quem estalava as folhas e os ramos, quem descalço batia a terra e chamava os pintaínhos; quem piava, cacarejava, bichanava, quem se agarrava às vacas aos segredos. Seguimos o caminho aberto pelos campos, ao longo do rio. Baixa a terra era molhada. Entramos rio dentro. Molhando aos poucos as pontas da minha saia, rosa, arrastando a superfície da água, verde; erva lançada ao acaso pelos namorados das suas margens, pelos abraçados dentro das frinchas do moínho abandonado que espreitam o dia e a cumplicidade dos ramos e das pedras.
Empurrando o rio que das minhas pernas fazia ponte, e a sua mão que puxava o meu corpo para dentro do rio, para junto do seu. Desiquilíbrio. A água chega-nos à cintura.
Apanhamos pedras que colocamos mais adiante em cima da terra, ao sol, para que avisem o sentir, para que previnam o vento.
Empurrando o rio que das minhas pernas fazia ponte, e a sua mão que puxava o meu corpo para dentro do rio, para junto do seu. Desiquilíbrio. A água chega-nos à cintura.
Apanhamos pedras que colocamos mais adiante em cima da terra, ao sol, para que avisem o sentir, para que previnam o vento.
ponte Dorna perto de Assureira e de Castro Laboreiro »
na praia de Afife
talvez valha a pena este mar em nevoeiro
ao longe, para os lados de Âncora
uma sirene toca de três em três segundos
guiando os barcos de pescadores
lançados noutras redes que não as minhas.
se fosse possível contar toda esta areia
os números não chegariam.
mas para quê contar a areia?
se eu fosse areia, junto do mar sempre
não sentir, não pensar
não pensar.
não precisar fazer nada e nesse nada
fazer tudo.
a praia que se povoa
já se ouvem gritos de crianças
a sirene
o mar nos rochedos
este papel que estala
nada mais ruído.
ao longe, para os lados de Âncora
uma sirene toca de três em três segundos
guiando os barcos de pescadores
lançados noutras redes que não as minhas.
se fosse possível contar toda esta areia
os números não chegariam.
mas para quê contar a areia?
se eu fosse areia, junto do mar sempre
não sentir, não pensar
não pensar.
não precisar fazer nada e nesse nada
fazer tudo.
a praia que se povoa
já se ouvem gritos de crianças
a sirene
o mar nos rochedos
este papel que estala
nada mais ruído.
no porto de Viana
pelas ruas da cidade porto plenas de sol
multidões, coloridos objectos tradicionais
camisolões de pescador, aventais e blusas bordadas
tapeçarias e toalhas
cestos, vestidos de noiva minhota, negros
bordados a negro desenhando altos relevos
ao lado de pregas miudinhas infindáveis
coletes e saias, chapéus
recordações em pano e madeira.
um sem número de coisas preciosas
põe Viana nas soleiras das portas
para encher os olhos aos turistas.
embrulhada nesse movimento de luz e cor
passeio procurando o rio
que sei hei-de encontrar algures ao fundo das ruas.
fiz quilómetros a pé em círculo no mesmo lugar
em redor da mesma estátua
sob a mesma ideia, o mesmo juízo
o mesmo sentido
e quando por fim encontro o rio
no perfeito estagnar do movimento
seguro a unidade de tempo
que separa o fim do principio.
é minha, a mim pertence
a luz antes de ser do rio.
multidões, coloridos objectos tradicionais
camisolões de pescador, aventais e blusas bordadas
tapeçarias e toalhas
cestos, vestidos de noiva minhota, negros
bordados a negro desenhando altos relevos
ao lado de pregas miudinhas infindáveis
coletes e saias, chapéus
recordações em pano e madeira.
um sem número de coisas preciosas
põe Viana nas soleiras das portas
para encher os olhos aos turistas.
embrulhada nesse movimento de luz e cor
passeio procurando o rio
que sei hei-de encontrar algures ao fundo das ruas.
fiz quilómetros a pé em círculo no mesmo lugar
em redor da mesma estátua
sob a mesma ideia, o mesmo juízo
o mesmo sentido
e quando por fim encontro o rio
no perfeito estagnar do movimento
seguro a unidade de tempo
que separa o fim do principio.
é minha, a mim pertence
a luz antes de ser do rio.
sábado, 12 de abril de 2008
solidão

caneta de feltro
a solidão é ao mesmo tempo
a antecâmera da loucura e da lucidez.
algo que se receia e se procura
como tudo o que se abre e logo se fecha
tudo o que se recorda e logo se esquece.
é estar dentro das coisas sem as possuir.
porto não sentido

ponte D. Luís - Rui Bonito
penduradas de noite, de cada lado há uma margem.
as contas infinitas que se fazem ao tempo
descrevem-se arcos e ponteiros sobre a cidade
que todos os dias se afoga e submerge
como náufrago sem destino
vagueando ao acaso na esperança louca de um s.o.s.
na angústia vermelha de um sol posto a sul
das torres das igrejas que ferem o céu
e lançam os sinos no vento.
como se Deus existisse.
imensas madrugadas se constróem paralelas
o entardecer é sempre perpendicular.
a cidade não sabe de um lugar
e interroga o espaço de olhos baços e pequenez.
como se o seu interior estivesse gasto
navega à toa num ego exterior e uno
como caravela desencontrada do porto que a nasceu.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
ilusão será
memórias perdidas vão já além
cresce segura na mente a certeza.
não sei se mente
ilusão será.
farsas correntes de água que arrasta a paisagem
e sinto-me correr dentro dela.
corro
farsas
corro
farsas correntes
não sei se mentes
ilusão será.
cresce segura na mente a certeza.
não sei se mente
ilusão será.
farsas correntes de água que arrasta a paisagem
e sinto-me correr dentro dela.
corro
farsas
corro
farsas correntes
não sei se mentes
ilusão será.
freaky twins

(dizem que há três pessoas em nós: a que somos, a que julgamos ser e a que os outros pensam que somos).
sou trifácea não una
existe outra que não posso enlaçar
e outra ainda vive cá dentro.
se afogada está, respira e vem
quando a toco.
momentos há em que sufoco.
e não sou eu quem olha
e sou eu e não a conheço
não me respira
não me sente
não me aproxima.
a alma também murmura no corpo
estudo, leveza, lentidão
a pena cor pincel
se pinte asas em papel.
desliza o corpo pela casa azul
tapete fugido, cortinas em barulho no meu mar.
uma janela de madeira comida por mil bocas de mil bichinhos.
ninhos, pêndulo, telhado, sol
muito sol em pedaços pela casa, na alma.
calor, tira azul no horizonte.
virgem porta escancarada dos sorrisos pela rua acima
dos abraços em cruz, montanha a montanha.
em lugar de fazer alarido
restar contente sem dar a perceber ao mundo:
- a alma também murmura no corpo como mar dentro do meu búzio.
a pena cor pincel
se pinte asas em papel.
desliza o corpo pela casa azul
tapete fugido, cortinas em barulho no meu mar.
uma janela de madeira comida por mil bocas de mil bichinhos.
ninhos, pêndulo, telhado, sol
muito sol em pedaços pela casa, na alma.
calor, tira azul no horizonte.
virgem porta escancarada dos sorrisos pela rua acima
dos abraços em cruz, montanha a montanha.
em lugar de fazer alarido
restar contente sem dar a perceber ao mundo:
- a alma também murmura no corpo como mar dentro do meu búzio.
a água e o pão

Há um campo cheio de oliveiras, carvalhos, plátanos, castanheiros. O tanque velhinho de granito onde cai água fresca, água da mina das entranhas da terra do campo de cima. Chamam-lhe o lugar das mil águas porque nunca se esgota nem quando secam os poços.
Coze Isabel no forno o pão que ainda embrulha em folhas de couve. Ainda utiliza o forno velho - de outra forma não seria o pão abençoado com o sabor antigo dos avós. Sabiam tudo o que há para saber: a água e o pão.
domingo, 6 de abril de 2008
ainda
hoje é cinzento e as casas partem-se de lado
as chaminés pintam o céu que se entorna em azuis
cores que se repetem sempre nas telas que pintaste para eles
como fio inquebrantável onde não principias nunca
o outro voo que ficou por lançar a asa no espaço.
e recolhes a despedida de folhas mortas todas as manhãs
como destino já demarcado no movimento.
ensaias o corpo na alma e esperas em silêncio
a face transparente de um dia de chuva.
ainda.
os teus passos vigiados arrastam pelas ruas
o outro lado do céu
como fundo de mar perdido
noutra tela que não soubeste entender.
as chaminés pintam o céu que se entorna em azuis
cores que se repetem sempre nas telas que pintaste para eles
como fio inquebrantável onde não principias nunca
o outro voo que ficou por lançar a asa no espaço.
e recolhes a despedida de folhas mortas todas as manhãs
como destino já demarcado no movimento.
ensaias o corpo na alma e esperas em silêncio
a face transparente de um dia de chuva.
ainda.
os teus passos vigiados arrastam pelas ruas
o outro lado do céu
como fundo de mar perdido
noutra tela que não soubeste entender.
exposição
traços indefinidos no papel
desenhando rostos, mãos e sombras
delineando sorrisos amenos
ou prantos
tinta saída de um ponto descentrado
espalhada em linhas finas pelo papel
a sorrir da gravidade desses rostos
saídos de um só pescoço
rostos talhados em pedra
o preto no branco
as molduras tão graves
a sala tão estática
cores frias
gelos
enfia-se a arte em invólucros
como mortos em caixões
desenhando rostos, mãos e sombras
delineando sorrisos amenos
ou prantos
tinta saída de um ponto descentrado
espalhada em linhas finas pelo papel
a sorrir da gravidade desses rostos
saídos de um só pescoço
rostos talhados em pedra
o preto no branco
as molduras tão graves
a sala tão estática
cores frias
gelos
enfia-se a arte em invólucros
como mortos em caixões
ontem
óleo de A.B.
marés escondidas para além das linhas
os olhos rubros no longe tardio
entardece e espera um grito
que talvez faça espuma desta areia.
garganta enforcada em pranto ou desvairada.
garganta de sons arrepiados mas logo abafados.
cimento sobre todo o cimento e cinzento cinzento cinzento.
linhas escondidas aquém das marés.
estas que descem de um rosto e sombreiam um corpo
estas que quebram desassossegos
e se encostam nas soleiras das portas
a sorrir de nada para o dia que foi ontem.
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