sexta-feira, 28 de março de 2008

onde se fazem pintores


aquelas artes são todas as artes
espírito em desatino pelas telas, aos trambolhões nas cores
pincel acima até à mão para onde fogem todos os encantos e desencantos
dos dias de sol, com chuva, incongruentes e azedos
uns que outros mais leves e tranquilos
amenos
propícios ao tudo que nada são
mais aqueles que se exibem cidade dentro
embrulhados como múmias em pele fina de cera.

ruas de palacetes do outro século
ruas estreitas balançadas entre dois arames de corda
roupa desfraldada como bandeiras pelas varandas
vai pingando cá para baixo no solo de pedras cinzentas
gotas de água reluzentes e quebradiças do silêncio
o silêncio do charco já feito.

estas artes são como todas as artes.
enredadas e traiçoeiras, de vértices e ângulos
uns mais explorados que outros, dispostos de maneiras diferentes.
poder-se-ia fazer tudo igual de outra forma
mas é o prisma que determina o artista.

nas águas-furtadas fazem-se tempestades.
dos caleiros rotos esverdeados, cobertos pelo musgo do tempo
pingam no chão gotas transparentes
reflectindo janelas e telhados
no charco que vai crescendo no chão.

tarde cinzenta não pára de chover.
céu entonteado, triste, sem razão angustiado
como um borrão sobre as nossas cabeças.
recordo outras tardes assim
quando imaginava que estava dentro de uma redoma
cujo vidro não se desembaciava nunca
sempre opaco.

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