desprende a pele do seu sossego
e apoia-se no ombro que arrasta
apenas movendo o passo se torna ágil
leve contra a terra
tudo é feito no fundo da terra
tudo é feito no fundo dos corpos
o seu nome nos lábios que beija
murmura e quer gritar no ventomas não é amor
não é amor
sábado, 29 de março de 2008
tango
primeira comunhão fotografia primeira
apenas precisava ficar imóvel
para não tremer a fotografia
ele preparou o jogo de luz
ensaiou daqui e d'acolá
mas nada havia a fazer
às sombras da tristeza
da infância que o não era
apenas precisava ficar imóvel
para não amarrotar o vestido
erguer as mãos numa prece
apertando o terço de pérolas fingido
e pedir baixinho
Nossa Senhora do Rosário
faz com que eu fique bem
apenas precisava ficar imóvel
e aguardar pacientemente para sorrir
que ele acertasse a objectiva
e do nada dissesse olhó passarinho
mas disparou e nada disse
o clique da máquina no coração percebeu
meninas como ela não viam passarinhos
para não tremer a fotografia
ele preparou o jogo de luz
ensaiou daqui e d'acolá
mas nada havia a fazer
às sombras da tristeza
da infância que o não era
apenas precisava ficar imóvel
para não amarrotar o vestido
erguer as mãos numa prece
apertando o terço de pérolas fingido
e pedir baixinho
Nossa Senhora do Rosário
faz com que eu fique bem
apenas precisava ficar imóvel
e aguardar pacientemente para sorrir
que ele acertasse a objectiva
e do nada dissesse olhó passarinho
mas disparou e nada disse
o clique da máquina no coração percebeu
meninas como ela não viam passarinhos
sexta-feira, 28 de março de 2008
onde se fazem pintores
aquelas artes são todas as artes
espírito em desatino pelas telas, aos trambolhões nas cores
pincel acima até à mão para onde fogem todos os encantos e desencantos
dos dias de sol, com chuva, incongruentes e azedos
uns que outros mais leves e tranquilos
amenos
propícios ao tudo que nada são
mais aqueles que se exibem cidade dentro
embrulhados como múmias em pele fina de cera.
ruas de palacetes do outro século
ruas estreitas balançadas entre dois arames de corda
roupa desfraldada como bandeiras pelas varandas
vai pingando cá para baixo no solo de pedras cinzentas
gotas de água reluzentes e quebradiças do silêncio
o silêncio do charco já feito.
estas artes são como todas as artes.
enredadas e traiçoeiras, de vértices e ângulos
uns mais explorados que outros, dispostos de maneiras diferentes.
poder-se-ia fazer tudo igual de outra forma
mas é o prisma que determina o artista.
nas águas-furtadas fazem-se tempestades.
dos caleiros rotos esverdeados, cobertos pelo musgo do tempo
pingam no chão gotas transparentes
reflectindo janelas e telhados
no charco que vai crescendo no chão.
tarde cinzenta não pára de chover.
céu entonteado, triste, sem razão angustiado
como um borrão sobre as nossas cabeças.
recordo outras tardes assim
quando imaginava que estava dentro de uma redoma
cujo vidro não se desembaciava nunca
sempre opaco.
espírito em desatino pelas telas, aos trambolhões nas cores
pincel acima até à mão para onde fogem todos os encantos e desencantos
dos dias de sol, com chuva, incongruentes e azedos
uns que outros mais leves e tranquilos
amenos
propícios ao tudo que nada são
mais aqueles que se exibem cidade dentro
embrulhados como múmias em pele fina de cera.
ruas de palacetes do outro século
ruas estreitas balançadas entre dois arames de corda
roupa desfraldada como bandeiras pelas varandas
vai pingando cá para baixo no solo de pedras cinzentas
gotas de água reluzentes e quebradiças do silêncio
o silêncio do charco já feito.
estas artes são como todas as artes.
enredadas e traiçoeiras, de vértices e ângulos
uns mais explorados que outros, dispostos de maneiras diferentes.
poder-se-ia fazer tudo igual de outra forma
mas é o prisma que determina o artista.
nas águas-furtadas fazem-se tempestades.
dos caleiros rotos esverdeados, cobertos pelo musgo do tempo
pingam no chão gotas transparentes
reflectindo janelas e telhados
no charco que vai crescendo no chão.
tarde cinzenta não pára de chover.
céu entonteado, triste, sem razão angustiado
como um borrão sobre as nossas cabeças.
recordo outras tardes assim
quando imaginava que estava dentro de uma redoma
cujo vidro não se desembaciava nunca
sempre opaco.
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