sábado, 7 de setembro de 2013

portas onde nos apetece estar

(algures perto de Viana do Castelo)

lido por aí

By wasting nearly 20 comments on this tumblr and not a single comment about something else I think everyone should be talking about that I haven’t mentioned until just now, you’re silencing me by rejecting the intuition that has arisen in women as an adaptation to the demands of the oppressor and not reading my mind.

 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

lua de são joão

A super lua é um mito, mas não faz mal. São João sob uma lua destas, na primeira noite de Verão, que interessa que tudo sejam mitos? 
Esta é a lua joanina que há momentos apareceu na janela do meu sotão.


terça-feira, 11 de junho de 2013


Todo Cambia

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...

quinta-feira, 14 de março de 2013

Aos treze dias

do mês de Março do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e treze, o clube do bolinha mais antigo da cristandade ainda é tolerado e acaba de eleger um novo papa com o nome de Francisco. Dele se espera que ponha a igreja no caminho da tão ansiada reforma o que não deverá acontecer nos próximos dois mil anos. E para constar fiz este. Era ut supra.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tiririca já não mora aqui


Numa velha anedota da antiga República Democrática Alemã, contada por Slavoj Žižek, um alemão de leste que vai trabalhar na Sibéria, sabendo que o correio é lido pelos censores, diz aos seus amigos que usará um código nas suas cartas: se a carta estiver escrita a azul o que lá vier relatado é verdade; se estiver escrita a vermelho é mentira. Um mês depois os amigos recebem a primeira carta da Sibéria, escrita a azul, onde o alemão lhes dava conta da vida maravilhosa que levava. As lojas estavam cheias de produtos, havia abundância de alimentos, os apartamentos eram espaçosos e devidamente aquecidos, os cinemas passavam filmes do Ocidente, as raparigas eram bonitas e abertas a relacionamentos sexuais… A única coisa que não havia era tinta vermelha.

No seu livro Welcome to the Desert of the Real!, Žižek interpreta esta anedota dizendo que começamos por reconhecer que temos todas as liberdades que desejamos e, de passagem, mencionamos que a única coisa que nos falta é a linguagem que nos permite articular a nossa falta de liberdade. As nossas “liberdades” servem assim para mascarar a ausência de uma liberdade mais profunda.

Lembrei-me desta anedota quando conversava com uma amiga brasileira sobre o fenómeno Tiririca. Logo a seguir às eleições e ainda chocada com os quase 1,3 milhões de votos conseguidos pelo candidato a deputado federal, contava-me que a sua empregada, ao saber que ele corria o risco de ser dado como incapaz, caso não provasse que era alfabetizado, lhe disse: «Já viu, Dona D.? Querem roubar os votos ao Tiririca por ele ser “analfabético”».

O candidato Tiririca era literalmente um palhaço. A sua campanha não continha qualquer programa, apenas alguns slogans em rima dirigidos precisamente aos “analfabéticos”:

Se não sabe ler e se complica, vote Tiririca. Só lê livro que tem figura que explica? Vote Tiririca.

Aos que, para além disso, tinham receio de votar mal e piorar a situação, o apelo era simples:
Vote Tiririca. Pior do que tá não fica.


A surpresa e incompreensão da parte letrada da sociedade ficou bem expressa na pergunta de um jornalista que quis saber do próprio candidato como é que ele convencia as pessoas a votarem nele. “Eu falo a língua deles”, respondeu.

Uma grande parte da população, tendo a liberdade de voto não sabe o que fazer com ele, como usá-lo a seu favor. Assistem ao desfilar de programas políticos e promessas e todos lhe parecem iguais, cinzentos, mentirosos e corruptos. Indistinguíveis. Não saber separar o trigo do joio, poder escolher e não saber fazê-lo é uma ausência de liberdade que a democracia também disfarça. Um milhão e trezentos mil brasileiros encontrou a linguagem para exprimir essa ausência nas rimas do Tiririca. A empregada da minha amiga angustiava-se perante a possibilidade do “roubo” dos votos porque, embora soubesse perfeitamente que o agora deputado era uma anedota, tinha mais ou menos aceite que lhe roubassem tudo excepto a sua esperança num Messias, forjado nas mesmas malhas da ignorância que ela partilhava com milhões de brasileiros. Tão despojados quanto ela.

E o que iria fazer o Tiririca se conseguisse provar que não era analfabeto e assumir o cargo? Iria construir escolas para os pobres educarem os filhos, não de qualquer maneira, mas "como o rico educa os dele". No meio da sua campanha apalhaçada parecia ter entendido perfeitamente que a liberdade não é uma coisa que a democracia dá como certa. Não se recebe nem se conquista. Compra-se.

Esta semana soube-se que Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, vai abandonar a política e o partido alegando motivos pessoais (ganha mais como palhaço e quer ter mais tempo para a família). Cumpre assim a ameaça que tinha feito anteriormente. Na altura mostrou-se desiludido afirmando que, tendo chegado aonde chegou, pensou que iria "aprovar projectos que iam beneficiar a população e essas coisas todas, mas não é assim. Há outros interesses". Não conseguiu aprovar nenhum e nunca discursou na tribuna. É no entanto um deputado esforçado e foi considerado um dos melhores numa votação online que teve como vencedor o professor universitário e jornalista Jean Wyllys, que ganhou popularidade quando venceu o reality show Big Brother no Brasil, um programa que, como é sabido, se dedica a fabricar palhaços.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ich bin ein Berliner ou Wenn ist das Nunstuck git und Slotermeyer? Ja! Beiherhund das Oder die Flipperwaldt gersput!

A anedota mais engraçada do mundo (também conhecida por German Killer Joke) era uma arma secreta inventada pelos ingleses para acabar de vez com o exército alemão. Depois de a lerem ou ouvirem os soldados alemães morriam todos. Tinha no entanto um inconveniente: também matava ingleses que percebessem alemão. A causa da morte era o riso incontrolável.

Mas isso era no mundo dos Monty Python. No pequeniníssimo que habitamos à beira-mar plantado, as anedotas pretendem ser coisas sérias e matam-nos de vergonha. Porém, alguém sobreviverá: os Likes no YouTube ultrapassam por grande margem os Dislikes.

domingo, 28 de outubro de 2012

confissão

Toda a gente sabe como é: chamei nomes à minha irmã, dei um estalo ao meu irmão, roubei uma pêra do pomar do Monsenhor, três ave-marias, duas glórias, vai em paz e que Deus te acompanhe. E eu ia, prometendo não voltar a pecar, pelo menos até ao Domingo seguinte para poder comer o Jesus.

As confissões eram feitas numa sala contínua à sacristia onde havia duas filas de bancos e em frente a cada uma um confessionário. Comandadas pela catequista entrámos e sentámo-nos na fila onde já estavam algumas pessoas. Alguns minutos depois entraram dois padres. O Padre Eduardo ocupou o confessionário da fila onde não estava ninguém deixando ao Padre António o confessionário da fila onde estava toda a gente. Então uma coisa extraordinária aconteceu: como robots obedecendo ao pressionar de um botão, toda a gente se levantou em simultâneo transferindo-se para a fila do Padre Eduardo. Todos menos eu.

O padre António andava sempre com calhamaços debaixo do braço. Passeava e falava sozinho fazendo oscilar o guarda-chuva de trás para a frente e da frente para trás, marcando com ele o passo, levantando-o de longe a longe para apontar a extremidade metálica para o céu, feita pára-raios da fúria divina que segundo a dona Amélia também se manifestava por faíscas e trovões. Ninguém gostava do padre António. Ele acreditava no que fazia, no amai-vos uns aos outros e na partilha da riqueza, mas acreditava um bocadinho demais. Era um caso perdido. Era um caso de loucura.

Aos Domingos, quando a igreja se enchia até às axilas, saía apressadamente da sacristia e despachava a missa até à homilia a que dava início abrindo e fechando os cotovelos. Imaginava-o a tentar elevar-se ao céu e a ficar pendurado no candelabro pela atrapalhação da batina e dos paramentos. O tom de voz ia subindo com ele até ao ponto em que enrubescia e esticava o dedo para os fiéis gritando coisas como:

- Hipócrita!

Os hipócritas entreolhavam-se tentando perceber para quem é que ele estava a apontar. Uma eternidade de silêncio depois, saía do seu momento de elevação quando as pessoas começavam a tossir e a inquietude das roupas de Domingo ia subindo às alturas. Oremos. E orava-se sem convicção a ladainha aprendida na catequese.

No fim da missa os fiéis reuniam-se em pequenos grupos no adro da igreja, comentando o sermão do padre e tentando decidir se deveriam, mais uma vez, levar o caso ao Monsenhor. As crianças, alheias a tudo isso, corriam umas para as outras de línguas esticadas para fora exibindo o troféu. Corpo de Cristo a derreter devagarinho no tapete vermelho que se desenrolara para ele. Afastava-o dos dentes de leite colando-o no céu-da-boca. Quem o trincasse ia para o Inferno.

Todos menos eu. Fiquei colada ao banco, paralisada pela expressão tão clara e crua de desprezo e rejeição que pela primeira vez testemunhava, imaginando os olhos perscrutadores do Padre António ocultos pelo rendilhado do confessionário colados em mim, aguardando a sua única freguesa. Levantei-me sem tirar os olhos do chão, as pernas tremiam um bocadinho sob o peso dos olhos das outras crianças. Com o coração aos pulos caminhei pelo espaço entre os bancos e sentei-me na fila do Padre Eduardo.

Não tinham percebido nada: o padre António apontava para mim.

domingo, 14 de outubro de 2012

um segredo sobre um segredo

Houve um tempo em que construíamos as nossas autobiografias escrevendo diários pelos quais zelávamos para que se mantivessem secretos, para os nossos olhos somente. Hoje fazemo-lo através de fotografias que corremos a partilhar nas redes sociais. O excesso, porém, não é sinónimo de multiplicação da capacidade de possuir quem contempla, de lhe contar uma história ou um segredo. Talvez seja por isso que gosto tanto das fotografias anónimas do passado.  Mais do que a fotografia artística procuro a dos quotidianos, de gente que numa pausa, por vezes rara, se deixou ou se quis fotografar e que sobreviveu enterrada em arquivos pessoais ou estúdios fotográficos, como aqueles onde vamos tirar o retrato para o BI ou a foto mais ou menos pirosa de corpo inteiro. Terão passado despercebidas aos olhos dos contemporâneos mas não aos nossos, talvez porque temos entre nós e eles a distância temporal, ou cultural, e o benefício de conhecermos o resto da história.

Nas fotografias de estúdio intrigam-me os objectos escolhidos para acompanhar os retratados, assim como as poses; o que é comum a quase todas as culturas e o que é completamente diferente, aparecendo por vezes como paradoxal.

Os taliban, nas fotografias tiradas em segredo nas traseiras dos estúdios, parecem partilhar o gosto pelas armas de fogo com o gosto pelas flores. Estas não se limitam a servir de decoração, são também exibidas muito perto dos rostos, criando um contraste absurdo, quase a servir de metáfora para a destruição do belo em que tanto se empenharam.



Há fotografias que foram retocadas, a pele clareada, os olhos pintados, algumas poses com rasgos de sensualidade, outras reminiscentes de um deus hindu. Pergunto-me se toda essa estética clandestina não seria uma forma de preencher o vazio deixado pelo desaparecimento do rosto feminino. Todas as fotografias são de homens.


Outro aspecto intrigante são os afectos. No estúdio Shehrazade (Saida, Líbano), os casais assumiam poses românticas típicas dos namorados, abraços e beijos, mas eram sempre do mesmo sexo, excepto quando a mulher era de cartão. Menos intrigante é se não o desejo de pertencer a outra cultura, a vontade de fingi-lo e perpetuá-lo numa fotografia. O estúdio possuía uma miríade de objectos com os quais os retratados podiam dar expressão aos seus sonhos e fantasias.


A fotografia mais célebre da colecção é a da mulher de Baqari (desconhece-se o nome dela) que foi ao estúdio Shehrazade onde Hashem El Madani a fotografou com roupas leves e o cabelo descoberto. Quando soube, o marido ciumento, que nunca a deixava sair de casa, exigiu a destruição dos negativos, mas Madani apenas concordou em riscá-los com um alfinete. Mais tarde, após o suicídio dela, ele voltaria à procura dos retratos com a esperança de que houvesse outros que desconhecia. Queria ampliações. Queria olhar para ela.



Ao olhar para ela, lembrei-me do que dizem tantas mulheres que vivem sob a tirania de sociedades ou de maridos obcecados em cobri-las: a remoção do véu em público é um desnudamento. Transparece a timidez, o desconforto e insegurança de quem quer e no entanto receia ser olhada. O corpo parece estar em conflito com o interior, sem saber bem o que fazer consigo próprio - um conflito entre o que a mulher deseja para si e aquilo a que o corpo foi obrigado a submeter-se até lhe parecer natural. A fotografia é também a materialização de uma vontade, sempre mais poderosa do que o medo.

Os clientes de Madani gostavam de ser fotografados junto de rádios. Esta menina adicionou as suas bonecas ao cenário, o que me recordou a infância e o rádio onde a minha mãe ouvia o fado e as notícias. Com a curiosidade normal das crianças queria saber como funcionava e acabei por me convencer de que havia gente muito pequenina dentro dele que vinha nas ondas. Uma Amália em miniatura.







O gosto pela tecnologia é universal. Por vezes é a presença dela que nos situa no tempo. Nestas fotografias chinesas, o ar medieval é quebrado pela presença da electricidade e do automóvel. O homem pode fazer um esforço colossal para manter as tradições e os modos ancestrais de vida, mas parece apenas adiar a derrota.




Em muitas fotografias chinesas, devido à formalidade e inexpressividade dos rostos, a história é a ausência de histórias. Não nos é permitido acesso à pessoa retratada. Inúmeros arquivos do século XX foram destruídos devido à guerra e à revolução. Hoje existe na China uma febre por estes documentos que precederam uma época em que possuir fotografias pessoais ou de antepassados burgueses era um risco. A maioria das que existem foram salvas por britânicos que as levaram para fora do país, tendo permanecido um segredo que os chineses agora descobrem.



Num hipotético futuro em que fotografias nossas, tendo invadido já todos os recantos da existência, apareçam também como restos de um passado anónimo, terão algum segredo para contar? Diane Arbus dizia que a fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais nos diz menos sabemos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

well, fuck you, the crisis is here

A propósito do seu último livro, Less than Nothing, Zizek no 24 Hour Hegel Marathon, sobre o bluffing dos intelectuais e a falta de respostas da esquerda radical para os diversos movimentos de protesto que foram surgindo como consequência da crise – uma crise que essa esquerda aguardava para finalmente ter o seu momento -, do surgimento de uma nova classe, os não empregáveis (não estão apenas desempregados como não têm qualquer hipótese de deixarem de o ser), da greve que se tornou um privilégio da função pública, do fetichismo gerado em torno da Apple (aqui não posso estar mais de acordo com ele), e muito mais.

Think about what happened in the last decade, till 3, 4 years ago, when we, at least in the developed west - I have no illusions about it - and with all problems, there was at least an illusion, if not the reality, of some kind of welfare state, relative prosperity; so the typical attitude of the (...) radical left was to play a Cassandra, no?; "ha-ha this prosperity is an illusion, you will see, there will be a crisis and then our moment will come". Well, fuck you, the crisis is here, show me one concrete, visible proposal of the radical left what to do. I don't know it and I'm following it closely, closely around.
Não seria Zizek sem uma das suas famosas anedotas. Um homem entra numa cafetaria e pede um café sem natas. O empregado diz que não tem natas e pergunta se em vez de um café sem natas lhe pode servir um café sem leite. Pois é. Um café sem natas não é a mesma coisa que um café sem leite. A negação conta.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

mulheres do futuro


A julgar pelas poses, pelo uso do corpete, os uniformes alterados para revelar curvas e braços de alguns destes postais de 1902, não me parece que tivessem uma intenção política. A associação das ideias feministas ao erotismo seria na época muito arriscada, mas não deixam de ser imagens encantadoras pela viagem que nos permitem fazer a um tempo em que uma mulher general apenas podia existir nas fantasias eróticas da mente masculina.






Postais da série Femmes de l'Ávenir editados por A. Bergeret, Nancy 1902, daqui.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

mirai, nun daprendistes nada! Porque nun sodes capaç, nun l'antendo! Pus se esta ye ua fala tan fácele


Daqueilho que to la giente gusta ye de falar de si mesmo ou d' ancuntrar-se a si mesmo an la fala de ls outros. Por isso, bou a cuntar-bos un cachico de la mie bida para berdes se an eilha ancuntrais algo que seia tamien buosso. I tamien para que sábades por que razones you, que nun naci an tierras mirandesas nin falo mirandés, m' antresso por esta lhéngua i stou hoije eiqui a falar-bos subre eilha.


You naci cun sina de cigana. Miu pai era bancário i a el le mudában de tierra cun la mesma facelidade cun que el trocaba l dinheiro als clientes. De cada beç que l mandában para outro Banco, lhebaba toda la família trás d'el. Fui assi que naci an Braga, ampecei a falar an San Miguel de ls Açores, las purmeiras lhetras daprendi-las an Cabeceiras de Basto i las cuntas an Guimarães; dórun-me l purmeiro lhibro gordo an Beja, screbi la purmeira carta an Mirandela, çcubri la niebe nesta Bila Real, studei trigonometrie an Bragança - i an l Porto ancuntrei ls eidiales que se bolbéran mi streilha polar. Apuis, la política de l tiempo lhebou-me para loinge de Pertual. Bibi an Marrocos, fui studar an la Roménia i passaba las férias an França. An Roménia formei-me an Lhenguística i Lhiteratura. Quando bolbi acá (an 1973) ampecei a trabalhar subre ls dialectos de Pertual nua eiquipa do Porsor Lindley Cintra i a biajar por todo l país, de norte al sul, de la mar até ls montes, por las islas i mesmo un cachico alhá frunteira. Era ua marabilha, tener ua porfisson que me eisigie subretodo oubir la giente de ls campos i de la mar, que me fazie besitar molinos i lhagares, partecipar an las pescas, assistir a serones de canto i cuntas i grabar i screbir las falas, las cumbersas que teniemos an las aldies que bisitábamos. Ora, ua dessas biaiges fui la que fazimos a Miranda, an busca de la fala mirandesa - que até anton conheciemos solo de ls lhibros. Fumos a Miranda sin niua sprança d'ancuntrar nada: José Leite de Vasconcelos habia dezido an 1901 que l mirandés iba a morrir-se mi debrebe. I, rialmente, procuremos essa fala an Miranda i nada. Ua sola surprisa tubimos: la de oubir falar spanhol ne ls sotos. Fumos anton a Paradela an busca de ti Lérias, que tenie fama de mirandés "auténtico" i de pessona cumbersadora (cumo l nome andicaba). Grabemos toda la cumbersa, cumbencidas que stábamos a oubir mirandés, mas aqueilha era ua fala qu' antendiemos mi bien. Solo an ne die seguinte, quando oubimos na aldie de Custantin la tie Rosa i la tie Claudina a falar mirandés berdadeiro, mos demos cunta que l tiu Lérias mos tinha falado an grabe, quier-se dezir, an pertués trasmuntano. Fúrun dues horas de grabaçon cun el a cuntar... lhérias. Ti Claudina, al cuntrário, falaba cumo ua berdadeira porsora, c'un bocabulário sin fin, i ponie tanta berdade an todo l que dezia, i era tan amable cun nós que, por eilha sola, fiquemos ancantadas cun to ls mirandeses i cula sue lhéngua. Eilha fui la purmeira a corregir las nuossas tentatibas d'eimitar l que íbamos oubindo. Se acauso eilha, hoije, stubira eiqui, cun certeza que dezia: "mirai, nun daprendistes nada! Porque nun sodes capaç, nun l'antendo! Pus se esta ye ua fala tan fácele!" Eisatamente l que me dixo an 1982, quando la conheci. I por me lhembrar d'eilha, dá-me la bergonha de inda nu saber falar esta lhéngua, passados tantos anhos. Por isso bou-bos a cuntar l restro solo an pertués.

Introdução à comunicação "Mirandês: passado recente, futuro próximo" na UTAD, Vila Real, Novembro de 2000, de Manuela Alexandra Queirós de Barros Ferreira 
 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

celebração

Dentro de uma qualquer sequência há um ponto em que a mudança é medida por fases, onde uma coisa se torna noutra. Uma acumulação de sedimentos torna-se uma rocha, o encontro de ribeiros e riachos torna-se um rio, um embrião torna-se um feto e este uma pessoa. Um adolescente com 17 anos e 364 dias torna-se um adulto. São marcos arbitrários, alguns alimentam muito debate, mas têm sempre de ser estabelecidos porque é assim que vivemos.

O meu filho atinge hoje um desses marcos. Com 17 anos, 364 dias e algumas horas é suposto metamorfosear-se num adulto. Julgo que deveria haver uma celebração especial, qualquer coisa que marque a transposição da fronteira, uma espécie de ritual de passagem, mas ele não entende a necessidade do espalhafato que acompanha estes acontecimentos. 

Há muitos fins de tarde em que ele vem pousar a cabeça no meu colo. Enrosca o homem que é nos braços e adormece. Aqui não há marcos nem fronteiras. Dura uma eternidade. Milhões de anos. 


sábado, 18 de fevereiro de 2012

função essencial

Não tenho nada contra a ideia de o estado ajudar as famílias para que os pais possam acompanhar mais os filhos, sobretudo agora que o governo parece mais empenhado em reduzir o tempo que passam com eles, mas defender que essa ajuda se destine às mulheres é passar um atestado de incapacidade parental aos homens. Indignam-se, e bem, com as palavras de Manuel Monteiro de Castro que considera que ser educador é uma função essencial da mulher, pelo que deve ficar em casa a educar os filhos e ter tempo para ouvir o marido.

Não é todos os dias que ouvimos um coro de homens protestar contra a ideia de que o lugar da mulher é em casa e, ao mesmo tempo, exigir que lhes seja reconhecido o seu papel de pais e educadores em pé de igualdade com o das mães. Se há alguma coisa nesta história que nos deva honrar é esta atitude e nunca a nomeação de Manuel Monteiro de Castro para uma coisa onde não somos tidos nem achados, diga Paulo Portas o que disser.